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RENATO ZUPO

Magistrado • Escritor • Palestrante

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raposa serra do sol Credito da foto CIR

O marco temporal

ENTRETANTO

O julgamento da ação da reserva Raposa  Serra do Sol pelo STF, em 2009, foi significativo para a segurança jurídica brasileira.

O Supremo disse à época que as terras ocupadas por nativos brasileiros, povos originários, ou índios até a Constituição Federal de 1988 teriam que ser respeitadas e garantidas, porque tradicionalmente eram habitavas pelos indígenas até então.

Ou seja, era mesmo e de fato a dicção do art. 231 da Constituição Federal.

De 2009 para cá nada mudou no Brasil no que se refere, em específico, à questão da demarcação de terras indígenas, nas garantias às nações nativas que as ocupam e ao zelo governamental impositivo para com isto.

No entanto, o próprio STF, novamente, reviu a questão do marco temporal para deliberar agora que não há mais o limitador da data da promulgação da constituinte , o que, na  prática, significa que índios podem reivindicar terras inclusive ocupadas ou supostamente ocupadas após 1988.

 

Tempo bom que não volta mais.

Enquanto a competência jurisdicional  do STF se ateve à dizer a constituição e  defende-la, e é isso que significa “jurisdição” (juris diccio – dizer o Direito), tivemos segurança jurídica.

Não se entendem os motivos para mudar time que está ganhando e deliberar novamente sobre uma questão já pacificada e que funcionou bem, ou não piorou (o que no Brasil já é muita coisa) até hoje.

 

E o aborto?

O mesmo STF também julga a descriminalização da prática do aborto  pela gestante e por quem a ajude, matéria tida  como crime nos art. 124 a 128 do  Código Penal, que  é de 1940 e passou nestes mais de oitenta anos por diversas revisões, nenhuma delas suficiente, é certo, mas se o legislador não reviu é porque optou por não rever, dadas as condições políticas e sociais e a conveniência governamental de cada momento.

Ou seja, não é que houve lacuna legiferante, lacuna legal, falta de empenho  em legislar por parte do detentor desta prerrogativa, que é exclusivamente o Congresso Nacional.

É que aqueles deputados e senadores, aqueles legisladores, optaram por não modificar “time que está ganhando”, ou  perdendo de pouco…. Quando o legislador viu a necessidade, mexeu com o Código Penal.

E se não descriminalizou a prática do aborto, é porque não viu maturidade social na discussão delicada sobre a matéria.

O Poder legislativo, optou, conscientemente, por não descriminalizar.

Se o STF o faz agora, não o faz diante de uma lacuna legislativa, mas sim em face de uma deliberação consciente do Congresso Nacional.

 

Descriminalizar ou não?

Não vou entrar nessa discussão sobre a legalização, ou descriminalização, do aborto.

Minha opinião  pessoal: o nascituro, aquele que está por vir, já está vivo, e então com ele não  se pode mexer à luz do Código Civil e da Constituição Federal  – e será crime interromper a gravidez da gestante, conforme o Código Penal, a não ser nos casos em que a legislação já autoriza: em caso de gravidez decorrente de estupro, de risco de vida para a gestante ou no caso de feto anencéfalo.

Mesmo nestes casos, falou em ciência, falou em erro. A ciência só subsiste às custas do velho método “tentativa e erro”.

Erra até acertar.

Foi assim que Thomas Edson errou  várias vezes a descoberta da lâmpada elétrica, até inventá-la.

O problema é quando a tentativa e o erro são com vidas humanas, e é por isso que não podemos ser cientificistas ao extremo aqui, o que a  pandemia já nos mostrou.

 

Onda de  calor.

No momento destas minhas humildes palavras o mundo está vivendo uma onda de calor inusitada, como nunca antes se viu. Em lugares frios o calor de 40 graus está matando idosos.

Problemas respiratórios aos montes – é cíclico, vai passar, mas me pus a pensar: se fosse durante o governo Bolsonaro iriam dizer que foi por culpa dele…

Lembram da nuvem negra que veio de Manaus e alcançou São Paulo e que deformadores de opinião disseram que eram consequências das queimadas amazônicas propiciadas pelo Capitão Bolsonaro?

Pois é.

Não conheci ninguém que tenha  visto a tal nuvem negra na capital paulista ou no caminho  da floresta até a terra da garoa.

Só vi pela internet em fotos estranhas e discutíveis. Amigos cientistas climáticos e meteorologistas me disseram, longe dos holofotes, que é tecnicamente  impossível  de ocorrer isso.

E dissera longe da mídia porque seriam perseguidos nos órgãos em que trabalham se o fizessem publicamente.

Não há hipótese alguma de nuvem negra e nem ela  se desfaria  como  por encanto diante dos “malefícios bolsonaristas” poucos meses após a troca do poder no Palácio do  Planalto.

OU seja, se tivesse nuvem negra dois anos atrás, continuaria tendo hoje.

 

Todos contra a mentira.

Repito aqui:  não sou contra a esquerda, a direita, o  centro, o raio  que os parta.

Sou contra a mentira, principalmente  porque alcança incautos, o povão, os menos letrados e os mais ignorantes.

É mentira deliberada disseminada com fins políticos, e isso é errado  vindo  de qualquer lado.

Abuso da ignorância alheia me faz lembrar uma frase certeira do antropólogo Darcy Ribeiro: “o problema da educação no  Brasil não é problema, é projeto”.

 

O dito pelo não dito.
“Se os governantes não construírem mais escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios.” (Darcy Ribeiro, antropólogo brasileiro).

 

Renato Zupo
Magistrado e Escritor

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