Quando conheci Jair Bolsonaro vi nele a antítese, o antagonista do político profissional. Politicamente incorreto, patriota, bonachão, não se assemelhava a alguém que passara várias décadas no exército e outras tantas no plenário da Câmara dos Deputados, para qual foi eleito e reeleito diversas vezes. Eram os idos de 2015 e ele não era nem pré-candidato ainda. Dilma estava na corda bamba e Temer articulava uma sucessão peculiar, o que acabou se dando. Depois revi Bolsonaro aqui em Araxá, já pré-candidato, antes da facada do Adélio. Ele em visita às minas de Nióbio e eu ajudando a ciceroneá-lo, intermediado pelo bom amigo Tadeu Carneiro, então CEO da CBMM, a maior mineradora de Nióbio do mundo. De novo, tive a mesma impressão. Sobre a corrida à presidência em 2018, ele vaticinava que não teria sossego por quatro anos, se eleito. Concordei, brincando que poderiam ser oito. Não foram. Muito difícil lutar contra a mídia, o stablishment, a censura e o pró ativismo judicial, sem pegar em armas. Neste aspecto, Bolsonaro foi um herói, porque se negou à rebelião cívica a que teria direito todo o tempo, preferindo jogar sempre “dentro das quatro linhas da constituição”, como sempre disse. De seu governo, além da bravura de quem lutou contra o populismo e (quase) deu a vida pela pátria, recebemos o legado de um país que manteve sua economia à tona durante os tempos da pandemia, com uma moeda que menos se desvalorizou logo após o terror da COVID, tornando-se um gigante do agronegócio e o quarto país do mundo a receber dólares e atrair investimentos estrangeiros. Mais que isso, duas heranças recebemos do bonachão Capitão Jair: o amor cívico à pátria, a bandeira e hino (que ele ressuscitou) e a morte definitiva do teatro das tesouras forjado por Lula à moda dos ditadores socialistas, forjando inimigos ideológicos que não existiam e eram, na verdade, compadres ideológicos (refiro-me, é claro, ao PSDB). Depois de Bolsonaro, direita é direita e esquerda é esquerda, com o hino nacional ao fundo, o pavilhão e o hino brasileiro tocando.
Insurreição Civil?
Não acredito em resistência à posse de Lula ou em qualquer tentativa judicial de impedi-la. No primeiro caso, porque caminhoneiros e produtores rurais, ,que trabalham árdua e honestamente, vão ser vencidos pelo cansaço. Afinal, mais cedo ou mais tarde vão ter que retornar aos seus afazeres para pagarem as contas. E é claro que Bolsonaro e seus correligionários conservadores não pretenderiam, no TSE ou no STF, reverter o aparente resultado das urnas, por considerarem com algum acerto que em parte foi o pró-ativismo judicial emanado destas instâncias do Poder Judiciário que contribuiu para a sua relativa derrota. Afinal, se me perdoam a paródia e antes que venha a censura, “para o capeta, o inferno está sempre certo”. E disse “relativa” derrota porque o presidente perdeu por números ínfimos, reverteu uma tendência de distanciamento do eleitorado, virou milhares de votos que seriam brancos ou penderiam para o lado vermelho da disputa. De dez pontos percentuais, que era a distância estimada por todos, perdeu por um ponto em uma vitória apertadíssima do adversário político Pela resiliência e por lutar contra tudo e todos, somente com enorme parcela do povo ao seu lado, Bolsonaro na verdade sai vitorioso, para mim o político mais popular do Brasil hoje. Não foi Lula quem ganhou as eleições, foi o anti-bolsnarismo, tão forte quanto o grupo de adeptos eleitores do capitão Jairo .
Saudades do Olavo.
Se Olavo de Carvalho estivesse vivo se sairia com um “eu não falei, porra?” diante do resultado apertadíssimo do segundo turno das eleições presidenciais. O maior pensador brasileiro desta quadra do século 21 insistia, sempre, que a sociedade só funciona com o socialismo morto e enterrado. Não adianta derrota-lo. É necessário destruí-lo, não com armas, como fizeram os militares a contar de 64, mas ideologicamente, intelectualmente, desprestigiá-los e desmascará-los, mata-los de fome ao destruir lhes a credibilidade em faculdades, no meio artístico e jornalístico. Sobretudo sepultar a falsa intelectualidade brasileira que só pensa para um lado – esse era o bom e velho Olavo de Carvalho. Que saudades dele…
Blitz no transporte eleitoral.
Vimos mais uma inovação jurisprudencial neste segundo turno das eleições, quando o presidente do TSE, o Ministro Alexandre de Moraes, determinou que as blitzen da Policia Federal sobre o transporte irregular de eleitores fosse velada, sem divulgação para a imprensa. Nova censura, na verdade, em uma época de tempos duros em que a censura prévia é uma triste realidade, a tal ponto de não ser novidade pra ninguém, tolerada por muitos porque é “contra a direita’. Covardes os que se calam. Quando se rasga a constituição, se rasga para todos os lados. Não que eu acredite que somente eleitores de um ou outro lado seriam impedidos de votar com a atuação da Polícia Rodoviária Federal (PRF) contendo o transporte ilícito de eleitores. Não, isso seria escandaloso demais. Além disso, com a experiência de mais de duas décadas presidindo eleições, sei que os dois lados em campanha transportam eleitores irregularmente. É chumbo trocado. Mas impedir a imprensa de divulgar e o cidadão de se inteirar do assunto por ocasião do dia do voto é mais uma facada nas liberdades e garantias constitucionais. Juristas do Brasil, onde estão?
O Dito pelo não dito.
“Inteligência sem coragem é pinto sem bolas. Muitos intelectuais, no Brasil, conseguem posicionar-se, por exemplo, contra um governo , contanto que o façam com todos os seus colegas. Difícil é ficar contra os colegas”. (Olavo de Carvalho, escritor brasileiro).
Renato Zupo
Magistrado e Escritor