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RENATO ZUPO

Magistrado • Escritor • Palestrante

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Distintos professores

ENTRETANTO

Em palestra recente para professores, salientei que a arte de educar os filhos dos outros é tão importante em alguns países, mas tão importante, que lhes são cedidos lugares de honra em eventos oficiais e são recebidos com pompa em visitas domésticas.

Como se fossem sacerdotes.

Em países orientais como Coreia do Sul e Japão, é uma profissão mais bem vista que a de médico ou padre.

Não é à toa que o ensino, na Ásia, tem sido o responsável pelo incremento da economia naquele lado oriental do globo.

Quem valoriza aos professores tem ensino de excelente qualidade, quem reverencia àqueles responsáveis pela disseminação do conhecimento obtém o justíssimo retorno de formação acadêmica de excelência.

No Brasil, e desde que me entendo por gente, e lá se vão 54 anos bem vividos, professores sempre foram muito mal remunerados.

A história de que professor é mal pago vem de antes, aliás, de minhas tias e da minha mãe, todas ganhando só para o salão de beleza e para a conta de luz e água, mantidas pelos maridos.

Diz-se de um antigo e folclórico político mineiro, o ex-governador Hélio Garcia, que respondeu a professoras da rede pública estadual em greve: “professora não é mal paga, é mal casada.

A visão do professor como um bico infelizmente ainda perdura, apesar da gradual emancipação  profissional feminina.

Até hoje, poucos docentes conseguem sobreviver bem exclusivamente das aulas que ministram, e não desfrutam em nosso país da distinção merecida. Nada de salário digno.

Grandes instituições de tecnologia e educação não vem para o Brasil, não montam franquias ou filiais, porque sabem que por aqui o solo é árido para a criação de uma cultura de ensino acadêmico de qualidade.

Dentro em breve, só lecionará, só dará aulas, quem não conseguir outra profissão mais tranquila e bem paga.

 

 A porta que se abre para as drogas.

E justamente professores, também eles em sua maioria pais de crianças e adolescentes, assustam-se com as drogas e sua inserção cada vez mais escandalosa, contínua, crescente, no meio de nossos jovens.

Explico-lhes sempre que devem focar naquilo que realmente importa no combate às drogas entre seu público mais cativo e vulnerável: a porta de entrada.

Descoberta a porta de entrada do jovem no submundo das drogas, fica mais fácil fechá-la, ou entreabri-la, ou abrir uma outra porta (do bem), mais convidativa.

E a porta que geralmente se abre para o mundo das drogas é a do entretenimento, do lazer.

Pais me procuram desesperados: são evangélicos, trabalhadores, amorosos, como assim nosso filho está preso por tráfico?

Todo traficante é, antes de tudo, um usuário e frequentador de submundos, bocas de fumo, biqueiras.

E foi para lá em busca de diversão, que não obteve de qualidade no ambiente doméstico.

Em busca de distração e de cultura, que não lhes foram fornecidas por pais e irmãos.

 

Anticorpos sociais e morais.

Pais que trabalham muito precisam dedicar tempo também para colocar os filhos para ler bons livros e assistir a bons filmes.

Se não os divertem no tempo livre, perdem em comunicação com os jovens.

Essa comunicação o rapaz ou a moça vai buscar na rua, onde nem sempre encontrará a interlocutores do bem.

E não se esqueçam: todo traficante, todo malandro, todo drogado, ao menos no começo é o cara “gente boa” da vizinhança.

Mesmo pais trabalhadores e religiosos as vezes não passam tempo suficiente conversando com filhos sobre sexo, sobre DSTs, ou mesmo sobre drogas.

Por vezes nunca orientaram sobre o primeiro beijo, contaram da partida de futebol dos sonhos, do grande campeonato ou do primeiro baile com a namoradinha ou o namoradinho.

São coisas que não estão na Bíblia, são papos que se deve ter com os pais.

Filhos precisam dos pais para conhecer o mundo e para defendê-los do mundo. Só assim criam anticorpos sociais e morais.

 

Como conter celulares?

Dito dos bons livros, fica difícil insistir com eles na atual geração Z, que não usa internet, habita internet.

Vive nas redes sociais e para elas.

Quando comecei a lecionar, era proibidíssimo aluno usar celular em salas de aula.

Havia repressão extrema quanto a isto – com o tempo, hoje, não dá para impedir o fenômeno, porque muitas vezes o aluno está ao celular justamente consultando parte da matéria apresentada durante a aula.

E o professor não vai enfiar a cara na telinha do celular do rapaz ou da moça como um enxerido, para saber se aquele conteúdo é conciliável com o tema lecionado.

Se você não pode vencer um inimigo, una-se a ele.

A lição é do imperador romano Júlio Cesar e, atualíssima, vale para o enfrentamento aos celulares.

Temos que aprender a admiti-los como inevitáveis na vida moderna. Indispensáveis para serviços bancários, compras e vendas, casamentos e divórcios, batizados e extrema-unção e enterros.

E para aulas. Ao invés de tirar celulares de filhos e alunos, podemos utilizá-los como trampolim para os livros e os bons filmes.

Difícil, mas não impossível. E exige dedicação. Orações são boas, mas as que valem são aquelas que acompanham as ações.

 

A dificuldade de punir.

Quem é bom, de coração bom, com Deus no coração, tem uma dificuldade muito grande de punir e castigar a outras pessoas.

Sejam filhos, alunos, criminosos condenados.

Nunca é bom impor pena, seja a proibição de videogame, suspender a sobremesa ou a ida ao shopping, ou por na cadeia.

Os castigados também não recebem bem suas reprimendas.

A mãe da gente, que é a santa maezinha da gente, quando nos passa uma descompostura que seja, não ficamos bem – imagine-se quando o fiscal inoportuno é um estranho ?

Então deixe-me falar de duas funções da sociedade atual, a fiscalizadora e a julgadora.

Ser fiscal é proteger a todos. Eu fiscalizo salas de aula, para que alunos tenham segurança ao frequentá-las.

Policiais fiscalizam o trânsito para manter incólume a segurança viária, a segurança do tráfego pelas ruas da cidade e rodovias.

E a função julgadora? A justiça no Brasil é restaurativa, reparadora e ressocializadora.

Calma que eu vou explicar. Ela restaura fissuras na sociedade, ela repara os danos causados pela ação dos homens e mulheres nocivas ao funcionamento das comunidades, direta ou indiretamente.

É como um médico no combate à doenças sociais.

E, quando pune, o faz para a melhoria da sociedade, para a prevenção de crimes e para a melhoria do condenado, que procura ressocializar.

Portanto, punir é melhorar o punido.

É sempre para o bem e, as vezes, me disse certa vez um colega juiz mais experiente, para fazermos o bem somos obrigados as fazer o mal.

 

Os cães de guarda.

Eu disse que nenhuma fiscalização é simpática.

Lembrei-me da historinha dos cães de guarda e das ovelhas.

O rebanho de ovelhas do pastor era protegido dos lobos por cães adestrados que, guiando o rebanho, também impediam que lobos e outros predadores se aproximassem para devorar as pobrezinhas.

Os cães, portanto, protegiam as ovelhas, que nem por isso gostavam deles.

Eles rosnavam para elas, vez ou outra mordiam a uma mais indócil que teimava em sair da comitiva e escapar da proteção do rebanho do pastor.

Mesmo assim, os cães de guarda eram os responsáveis pela segurança e bem estar das ovelhas, imprescindíveis para sua proteção.

As ovelhas precisam de proteção – nesta parábola são o povo.

Os lobos famintos e ferozes, os bandidos, os criminosos, as drogas, o mal.

Quem protege o povo deles as vezes também tem que ser feroz e antipático, tem que ferir e fazer o mal no bom sentido, para proteger.

Somos nós, os cães de guarda: pais, professores, policiais, juízes. É nossa função, nem sempre agradável, mas sempre necessária.

 

O exemplo é que fica – geração espontânea?

Não adianta também muita conversa com estudantes, muita palestrinha, muita DR com jovem.

O que vale é o exemplo.

Sobretudo, entenda que não há geração espontânea em termos de formação de crianças e adolescentes.

Se você não lê, se seu filho não vê você lendo, ele não vai ler.

Não adianta o sujeito viver com a cara no celular e a bunda na rede social e querer, no berro, que o filho estude para o ENEM.

Não adianta o sujeito fazer preleções e mais preleções contra drogas ilícitas dentro de casa, e encher a cara todo final de semana.

Não adianta defender a dignidade do trabalho e não trabalhar. Ou pedir para o filho tratar bem `a namorada, mas ele próprio, pai e marido, maltratar à esposa.

No fim e ao cabo, o seu exemplo é que vai ficar, para os seus filhos e para a vida.

 

O dito pelo não dito.
Educar a mente sem educar o coração não é educação.” (Aristóteles, filósofo grego).

 

Renato Zupo
Magistrado e Escritor

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