Chego a duas conclusões dos debates e entrevistas entre os presidenciáveis, as quais tenho assistido cada vez mais escandalizado com a maioria de nossos jornalistas que delas participam e que se comportam como militantes e não como profissionais imparciais. Ainda assim, e talvez por causa disso, estes embates e interrogatórios que deveriam ser debates e entrevistas amenos, deixam escapar desde logo algumas verdades insofismáveis. Lula não consegue esconder o passado recentíssimo e corrupto dos governos do PT, é como marca de batom na cueca. Aí se sai com números e retórica, mas não engana mais ninguém. Lula só tem hoje, garantidos, os votos dos petistas. Precisaria de mais e de convencer mais gente para e eleger, e acredito que não vai. Bolsonaro, por sua vez, está abandonado por seus estrategistas e marqueteiros. Dá pena, mas também admiração por sua valentia, vê-lo emparedado e encurralado por todos os cantos, lutando bravamente sem contar com profissionais a altura para orientá-lo melhor, a evitar polêmicas, frases editáveis e reações e temáticas ambíguas, de duplo sentido, que forneçam munição para os adversários. E cuidado com Ciro Gomes: o jurista arretado, com arroubos de cólera, sabe que é agora ou nunca pra ele após quatro eleições perdidas. Está brilhando à frente das câmeras.
É o que temos.
O próprio presidente Bolsonaro já disse várias vezes ter a plena consciência de que não é um governante perfeito e está longe disso, está repleto de defeitos que reconhece, mas que a alternativa à ele é tão deplorável que é melhor termos o que temos. Arnaldo Jabor, pouco antes de morrer, disse o mesmo de outra forma: os opositores do atual presidente eram de uma quadrilha tão cheia de idiotas que tornavam Bolsonaro mais digerível e até simpático. Estou lembrando disso por conta das discussões sobre a mistura de religião com política e o apoio evangélico ao presidente: particularmente, diferencio bastante a igreja protestante das suas vertentes pentecostais ou neopentecostais, aquela um progresso útil para a fé cristã, estas um tentáculo retrógrado da reforma de Lutero. No entanto, é o que temos. Ou vamos na onda evangélica ou começamos todos a defender o aborto e a legalização da maconha – e aí as famílias e os valores conservadores terminam de ir para o saco sem fundos da manipulação cultural.
Antitabagismo.
Meu professor Olavo de Carvalho também era contra o antitabagismo, ele um fumante inveterado até quase o fim da vida. Dizia o que já constatei e é a mais pura verdade: a publicidade e as leis antitabaco não diminuíram o número de fumantes ou os casos de câncer de pulmão no Brasil e no mundo, isto depois de duas décadas ou mais da implantação de políticas e legislações duras abolindo quase que totalmente o cigarro de ambientes públicos aqui e lá fora. Pronto. Bastou que ele dissesse isso para afirmarem-no dizer que o fumo não faz mal à saúde! É ridícula a distorção, mas incrível mesmo é encontrar idiotas que nela acreditem, porque está documentado no youtube e nas páginas dos livros do já saudoso mestre.
Urnas e bandeiras.
Noah Chomski diz com propriedade que a liberdade de expressão que defendemos é aquela, justamente, daqueles indivíduos que detestamos. As bandeiras políticas bonitinhas, que atacam o racismo o defendem a igualdade social, estas não precisam de proteção de liberdades. É o terraplanista, o fascista ou o comunista, ou o antivacina, que precisa desta liberdade. Em uma era estranha de falsa democracia em que liberdades voltaram a ser cassadas sem AI-5 e apesar da Constituição Federal em vigor, é bom que relembremos o âmbito das nossas liberdades. Quando se começam a proibir bandeiras nacionais e celulares em cabines de votação no dia do voto, é ótimo relembra que as liberdades ainda existem, apesar da Lei de Segurança Nacional despótica e em desuso que insistem em jogar contra o povo brasileiro.
O medo.
Casagrande saiu da Globo, mas justiça seja feita, não saiu atirando porque já atirava lá de dentro. O detalhe impressionante é que uma entrevista que deu pós demissão o comentarista deplorou as pessoas sob o manto do governo bolsonarista que, segundo ele, “perderam o medo” de ser homofóbicas ou ter preconceito religioso ou racial. Ora, Casão, não sei se você sabe, mas medo é sempre ruim. Não devemos ter medo do pensamento ou da política alheios, e Roosevelt, quando convenceu o Congresso americano a permitir o ingresso dos EUA na segunda guerra mundial, lembrou que a constituição dos pais fundadores da América sacramentava o direito para eles fundamental de “viver sem medo”. E é a política do medo que tentaram implantar no Brasil por pelo menos quatorze anos, quando dava vergonha e gerava assassinato de reputações, lacração e até processo criminal pensar diferente. Agora, as pessoas tem liberdade, até mesmo para falar besteira, como você Casão. Talvez só não saiba disso nosso ministro supremo que bloqueou as contas do empresário bolsonarista Luciano Hang. Quer que ele tenha medo.
O dito pelo não dito.
“Da História ninguém escapa.” (Abraham Lincoln, presidente americano).
Renato Zupo
Magistrado e Escritor