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Renato Zupo

Renato Zupo

Magistrado • Escritor • Palestrante

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O presidente e o povo

ENTRETANTO

Bolsonaro demonstrou que tem o povo em suas mãos e acabou criando um movimento ideológico, o “Bolsonarismo”, querendo ou não, mesmo sem raízes históricas sérias. Tal como o Lulismo, independe do sucesso de seu criador ou de coerência política e êxitos de gestão. O amor de seus fiéis e súditos é incondicional, é um amor bandido que tudo aceita. É muito mais fundamentalismo religioso que crença política. A passeata de 26 de maio de 2019 vai ficar marcada como sendo aquela que era desnecessária, aquela em que nem o seu próprio mentor botou fé ou aderiu e foi às ruas, e mesmo assim arrebentou e colocou milhões protestando em todos os estados do país. Ridículo foi ver no Fantástico, já naquele domingo à noite, deformadores de opinião tentando diminuir o feito com gráficos estrategicamente omissos e que tentavam demonstrar que as passeatas anteriores de universitários e professores contra o governo influenciaram mais porque… foram em mais cidades! Ora, ora, ora, e daí? Meia dúzia de pessoas por cidade fazem alguma diferença? A grande mídia perdeu a compostura, escancarou o engano, aperfeiçoou seu cinismo complacente.

Representatividade apaixonada.

O presidente representa quarenta por cento da população, o eleitorado tradicional, conservador, religioso – gente que estava sem representatividade naquele mar de esquerda que vicejava em nossas eleições até que Dilma quebrou o país. Esse contingente populacional considerável não poderia ser esquecido e a vocação socialista para a licenciosidade de costumes, para o “liberou geral” sexual, agrediu profundamente amplos setores da classe média que esperaram alternativa finalmente surgida nas últimas eleições presidenciais. A popularidade de Bolsonaro surpreende porque esvoaça com pesquisas de opinião e teóricos pessimistas, mas atrai alguns problemas. Não estou falando aqui dos petistas, porque destes se há de esperar sempre o mais ferrenho acirramento oposicionista, o que os torna previsíveis. Mas há um outro pessoal, os eleitores moderados, cerca de trinta por cento dos adultos votantes, gente que quer ver como está e, principalmente, como é que fica. É uma massa volátil que não exitará em aderir nas urnas aos adversários presidenciais para apear o Bolsonarismo do poder, se necessário for. Como fizeram com as esquerdas, quando viram que a ideologia socialista atrasada somente piora os problemas do país.

Cachorros grandes.

Os integrantes das passeatas pró-Bolsonaro direcionaram sua fúria aos congressistas e ao STF. Podem não ter falado por procuração presidencial, mas jogaram o presidente em uma briga de cachorro grande. Isso conheço bem, modestamente e guardadas as devidas proporções. Quando, no exercício da função pública, se atinge um alvo institucional, alguém verdadeiramente poderoso, uma “potestade” como se poderia dizer em termos bíblicos, basta esperar que o chumbo grosso da retaliação sempre chega. Haverá troco. Nunca temi esse revanchismo e acredito que Bolsonaro também o desafia, mas não se pode negligenciar o perigo, desconsiderar seus agravantes, presumir que não haverá contragolpe, porque o revide é sempre inevitável. Os Bolsonaristas atacaram o Congresso e o STF. Isso não vai ficar barato, acreditem. Quanto ao nosso tribunal maior criticado por acólitos do presidente, lembrei-me de meu velho pai, que dizia que só idiotas brigam com homens de saia: padres, juízes e escoceses.

O Julgamento de Sócrates.

Sócrates foi condenado à morte por um tribunal popular da velha Grécia. Seu crime: iludir os mais jovens e desvirtuá-los da pureza do culto às divindades mitológicas. Nada de sexual nas acusações. O crime de Sócrates era dar aulas e ensinar sua filosofia poderosa. Por isso, o obrigaram a tomar veneno após um julgamento histórico muito bem retratado em nossa literatura. Encarregado da própria defesa, Sócrates desde logo esclarece a existência de duas espécies de acusadores morais: aqueles que genuinamente são contrários ao seu pensamento e outros tantos que se compadecem e invejam o brilho de suas ideias e ações. Quanto aos primeiros opositores, nada há com que se preocupar, porque guardarão ética e trilharão o bom combate respeitando as regras da decência e da honestidade. Com os invejosos e ciumentos, no entanto, não há regras: o ódio e o ressentimento são muito mais poderosos do que o amor e a amizade. A capacidade de destruição de quem odeia é estrategicamente destinada a fazer o mau covardemente. Este acusador é um inimigo silencioso que guarda sua psicopatia, acumula subreptícios argumentos e estratégicos indícios para exercer oportunamente seu ódio vingativo. Muitas das acusações que transformaram a vida pública brasileira em um esgoto político à céu aberto foram fomentadas por gente desse tipo.

 

O dito pelo não dito.
“Com grandes poderes vem grandes responsabilidades.” (Stan Lee, escritor e quadrinhista americano, criador – dentre outros – do Homem Aranha e dos Vingadores).

 

Renato Zupo
Magistrado e Escritor

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