Tenho pena do nosso Brasil e de nós brasileiros. Aquela pena de quem ama, mas vê no ser amado algo de irremediável e derradeiramente decepcionante. Somos, de fato, uma republiqueta de bananas: ser ou ter sido presidente da república no Brasil é sinônimo de processo penal e cadeia e/ou impeachment. De Collor até aqui, só escapou FHC – e mesmo assim a cantilena de seu impedimento o assombrou no segundo mandato. Haverá de ocorrer com Bolsonaro, como uma arenga, uma melancólica e primitiva tradição. Também cercamos autoridades do Judiciário no exterior, e xingamos e nos rebelamos, assim como o fazem cubanos e nicaraguenses radicados nos EUA e nos países desenvolvidos da Europa ocidental. Seja qual for a sua ideologia política, não faz bem `a República presidentes presos e impedidos, autoridades do Poder Judiciário escarnecidas e hostilizadas pelas ruas das grandes cidades de outros países. Por mais que pareça bom ver alguém xingar a um aprendiz de ditador que tanto mal nos faz, ele continua representante de um poder da república, ainda que se trate de uma república de bananas.
Em New York.
Lançando meu último livro em New York, percebi que os brazucas que ali residem são todos muito unidos, geralmente vivem em Queens, próximos de Manhatan, e são uma autêntica legião de brasileiros fanáticos por seu país e dele exilados economicamente, em sua maioria. Sempre unidos, agora aproveitaram para hostilizar aos Ministros do STF que lá se encontravam para uma dessas conferências que ninguém entende bem o que é. Pergunto-me, como certa vez perguntou Truffaut, o cineasta francês, diante da primavera de Paris que arregimentou estudantes às ruas para confrontarem policiais: quem de fato ali representa o povo? Os ministros do STF ou os cidadãos brasileiros que não se sentem bem representados pelos membros da mais alta corte de justiça do país?
Como se conquista o poder.
Ao longo de mais de cinquenta anos de vida, pelo menos quarenta deles dedicados a árduos estudos, rato de biblioteca que sou, cheguei à seguinte conclusão sobre a conquista do poder: ou se dá pelo voto, ou na porrada. Não adianta frequentar passeatas como se fossem desfiles, aproveitando para paquerar e solicitando da polícia licença para ocupar espaços públicos. Isso virou programa social, oportunidade para memes, tudo menos revolta institucionalizada. É por isso que o conservadorismo, a direita brasileira, precisa sim aprender mais com a história: seus grupos são compostos por pais e mães de família trabalhadores que não podem se dar ao luxo de deixar de pagar boletos bancários e param de se manifestar quando as contas começam a chegar. É bonito ver o povo politizado, mas esse mesmo povo tem que saber que está se desgastando inutilmente diante de um processo eleitoral que, tecnicamente, acabou.
João Havelange.
A série O Jogo da Corrupção, da plataforma Amazon Prime, é brilhante e imperdível, como não se via desde Narcos, da Netflix. Tal como ela, também é uma produção multinacional, com atores e outros profissionais de diversos países e continentes. É riquíssima em detalhes do polêmico brasileiro João Havelange, que foi o todo poderoso da Fifa e morreu centenário e esquecido cinco anos atrás. Com flashes de sua infância e adolescência de nadador olímpico (esteve em Berlim 36 e prestou continência a Hitler), o fio da meada começa nas finais da Copa de 1966 em que perdemos na Inglaterra para a arbitragem e para a brutalidade impune de nossos adversários, e vai até sua morte, passando pela consolidação da Fifa como um organismo internacional apátrida e com soberania própria, como a ONU e o Vaticano, com personalidade jurídica estatal, de Direito Público. Havelange conquistou tudo isso e acabou seus dias execrado por escândalos de corrupção. Esquecido por todos, ainda assim foi o responsável pela popularização do futebol na Àfrica e na Ásia e pelo seu fortalecimento no Brasil. Brilhantemente interpretado pelo ator português, fantástico, Albano Jerônimo, que perdeu o sotaque lusitano para incorporar o carioquíssimo João, o filme não absolve Havelange, mas o mostra como a todos nós, com nossos defeitos e qualidades. Dentre os brasileiros do elenco, destaque absoluto para Maria Fernanda Cândido, no papel da esposa menosprezada e adúltera do biografado. Ela já é uma das melhores atrizes do país. Como lhe caiu bem a maturidade!
O Bom disso tudo.
Do limão fazemos limonada. Muito triste que os brasileiros tenham perdido pelos membros do STF o indispensável respeito. Já dizia com acerto o saudoso jurista Saulo Ramos que devemos sempre respeitar às instituições, independentemente dos seus representantes, e não é isso que está acontecendo. O bom disso tudo é que a população, revoltada mas politizada, madura intelectualmente, não confunde o STF com os juízes de carreira, que continuam com apoio popular. Onde vou vejo isso. O povão sabe que o STF não representa os juízes do Brasil e nem é seu espelho. Graças a Deus.
O Dito pelo não dito.
“Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos.” (Nelson Rodrigues, escritor brasileiro).
Renato Zupo
Magistrado e Escritor