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Renato Zupo

Renato Zupo

Magistrado • Escritor • Palestrante

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ENTRETANTO

Motoristas brasileiros tendem aos extremos. Ou são extremamente educados, ou enormemente mal educados. Infelizmente, a mais comum é a segunda situação, com gente rude atrás de volantes buzinando desnecessariamente, xingando, \”fechando\” e costurando. Não estou falando do motorista folgado, que é espertinho, um estelionatário do trânsito e que, como todo bom estelionatário, sorri e faz cara de bonzinho enquanto descumpre a legislação. Já o  motorista rude é aquele pronto pra briga e que usa as ruas e estradas do país como ring de MMA ou palco para exercitar seu mau humor e sua falta de educação. Mostra ao volante a educação que trouxe de casa ou a falta dela. É gente assim que geralmente briga, xinga e até mata por conta de um esbarrão no pára-choque de seu carro. O motorista muito educado, por sua vez, também avacalha o trânsito, parando no sinal amarelo ou simplesmente freando subitamente para um pedestre passar – fora da faixa ou antes dela. Educação demais, no trânsito, também causa acidentes. É preciso tomarmos cuidado com nossos humores ao volante. Eu não sou santo como motorista, vou logo avisando, e também tenho meus dias de fúria – que procuro estancar, não só porque moro em cidade pequena, onde todo mundo conhece todo mundo, ou por conta de minha profissão que é essencialmente pacificadora, mas talvez porque dirija muito conduzindo meus filhos e quero lhes dar bons exemplos. E, decididamente, brigar no trânsito não é um deles.

Causos.
A última vez que (tentei) xingar no trânsito foi hilária. Em Araxá fui tentar entrar no pátio de um posto de combustíveis e o veículo da frente, cujo motorista obviamente não me vira, simplesmente começou a dar marcha-a-ré. Dei aquelas duas buzinadas padrão, só para alertar, e o pobre diabo continuou dando ré. Tive que fazer uma manobra de Ayrton Senna em curto espaço para sair do roda dura, dar a volta e emparelhar com ele na entrada do posto. Abri o vidro irado e com aquele gosto enorme de xingar o sujeito que, quando vi, era um ancião que por acaso eu já conhecia das ruas e da profissão. Homem boníssimo, para quem sorri e acenei, afetando uma casualidade. Nunca mais me deu vontade de discutir no trânsito, porque aprendi que do lado de lá também há um pai de família, as vezes num dia ruim, e as ruas são um berço de problemas se quisermos de fato exercitar indevidamente nosso mau humor. Mesmo as mulheres, outrora doces representantes do sexo frágil, de uns tempos para cá estão ficando desbocadas e brutas como nós homens, no trânsito. Besteira. Se sorrissem e jogassem com seu charme, ganhariam todas e não precisariam fechar a cara. Lembro que, em Belo Horizonte, uma dessas motoristas bravas esbarrou no meu carro. Veja bem, bateu por detrás no meu veículo parado em um sinal, e mesmo assim saiu do carro dela xingando e querendo discutir. Na hora lembrei-me do meu finado professor de português forense, Jaime França, queridíssimo e que coroava suas aulas com lições de vida. Uma de seus ensinamentos jamais esqueci: \”Zupo, não discuta duramente com as mulheres. Seja sempre um cavalheiro. Se a discussão ficar dura, elas inevitavelmente vão às lágrimas, ou vão ficar histéricas. Vão chorar ou vão berrar, ou os dois.\”Com base nisso, simplesmente sorri e solicitei da motorista furiosa que chamasse seu marido, ou um filho, ou a polícia, e aguardei que ela providenciasse alguém mais calmo para discutir o problema.

Audiências.
A mulher do \”causo\” acima deveria estar furiosa porque todos nós motoristas, no trânsito, achamos que estamos certos, independente do tamanho de nosso erro. Presidi muito processo e muita audiência versando sobre acidentes de trânsito, e ouvi a enorme maioria dos motoristas gabando-se de não terem culpa nos acidentes que protagonizavam, não importando que estivessem a duzentos km\\h, bêbados ou dando cavalo de pau em porta de escola. O cúmulo aconteceu em uma audiência em que dois motoristas discutiam sobre a culpa em um acidente: um deles dizia que estava parado quando da colisão, e aí o culpado era o outro. Este último, por sua vez, afirmou que também estava parado, para meu estupor. Não me contive, e afirmei que deveríamos todos revisar as leis da física, e não a legislação de trânsito: dois corpos parados, gente, são incapazes de colidir! Na verdade, é o nosso ego, no trânsito e na vida, que nos impede de enxergarmos os erros mais óbvios que muitas vezes cometemos.

 

Renato Zupo,
Magistrado e Escritor

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