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RENATO ZUPO

RENATO ZUPO

Magistrado • Escritor • Palestrante

NOSSAS REDES SOCIAIS

bolsonaro conflitos

Um homem e seus conflitos

ENTRETANTO

Governar, assim como se relacionar profissionalmente, é construir pontes e não erigir muros. Não sei quem disse isso, mas a frase ficou para a história como sinônimo de boa política. O ex-presidente Washington Luís dizia alguma coisa um pouquinho diferente: “governar é construir estradas”. Ou seja, pontes e estradas, jamais muros. Quando se é agente político surgem alguns agravantes que tornam ainda mais sensível a necessidade de alimentar conexões e aparar arestas: em primeiro lugar, você está gerindo um patrimônio que não é seu; em segundo lugar, está prestando um serviço para os seus governados, gerindo-lhes a vida em sociedade através do Estado; em terceiro lugar, você está exercendo um poder que não é seu, mas do povo. Não é a toa que se diz que fulano ou beltrano representam este ou aquele poder, ou atuam por representação de seus eleitores. Ah! E o mais importante: tudo é temporário, mas o poder é ainda mais, é efêmero. Hoje se está e amanhã adeus. Portanto, é preciso fazer logo, fazer bem feito e não criar problemas, certo? Não se trata de fazer as pazes com seus  desafetos, mas de ao menos não acuá-los. Obviamente, também não estamos falando de mudar o discurso político, mas de suavizá-lo, tratando do essencial e abandonando toda e qualquer subjetividade. Como o agente politico fala e faz em nome daqueles que representa, tanto os que nele votaram quanto os demais do povo, deve beneficiar a todos o mais que puder, e não somente um grupo em detrimento do outro. Depois, não adianta reclamar de polarizações, de perseguições, de picuinhas e pirraças – quem vive pela espada, morre pela espada. Essa outra frase é bíblica. Bolsonaro, católico temente a Deus, casado com evangélica, com Deus e a fé ao lado da pátria como slogan de campanha, ao menos esta deveria saber.

 

Weintraub já vai tarde.

Gostaria de ter Abraham Weintraub como convidado em minha casa. Iria fazer um churrasco para ele e seus familiares, tomaríamos umas cervejinhas, contaríamos piadas, nos divertiríamos bastante. Ele é o tipo do sujeito boa praça e que fala o que pensa. Acho que Lula também seria um bom convidado nesse meu churrasco, ele que é tão espirituoso quanto conhecedor de boas histórias que sabe contar como ninguém. Talvez eu até ousasse mais: convidaria aos dois, o ex-presidente da república petista e o ex-ministro da educação encrenqueiro para a mesma reunião festiva. Acredito que iriam se dar superbem fora do alcance das câmeras abelhudas da imprensa e dos acirramentos políticos de Brasília. Afinal, um amigo meu viu Lula indo prestigiar Maluf no aniversário de 80 anos do eterno político paulista criador de polêmicas. Esses caras só brigam para a mídia ver e para agitar as manchetes dos sites, blogs e jornais. O que não seria possível é suportá-los (de novo) no governo. Aí não basta ser simpático, carismático, bom contador de histórias ou ser um boêmio divertido. É preciso trabalhar para as próximas gerações, e disto Lula se esqueceu, preocupando-se em angariar eleitores para eternizar seu partido no poder. É preciso gerar consenso em torno de metas, sem perder o foco com discussões desnecessárias, e tudo que Weintraub mais fez foi hostilizar seus desafetos. Durante sua breve passagem por Brasília pode não ter dito nenhuma mentira, pode ter acertado em suas boas intenções, pode ter sido transparente. Mas não basta isso tudo. Tem que haver respeito pelos poderes da República, tem que haver bom senso e prudência para governar.

 

O Caso Queiroz.

Fabrício Queiroz, você já sabe, era assessor de Flávio Bolsonaro na Câmara dos Deputados do Estado do Rio, e amigo antigo de todos da família do Presidente da República. A acusação que pesa contra ele é a de ter manejado dinheiro desonesto que depositava de bocado em bocado na conta de Flávio, o filho 01, além de pagar-lhe contas pessoais com dinheiro vivo. O caso era para ser estarrecedor se não vivêssemos em um país repleto de escândalos políticos, o que transforma Queiroz em um personagem coadjuvante em um enredo de segunda linha sem quaisquer atrativos maiores, não fosse pelo fato de que, com ele, (finalmente para alguns) se conseguem indícios que podem vir a incriminar um dos filhos do Presidente odiado por facções extremistas de militantes de esquerda e setores poderosos da imprensa nacional. Esse pessoal sabe fazer o serviço muito bem feito: primeiro arrumaram um jeito de afastar o queridinho Sérgio Moro do planalto, depois criaram uma zanga da polícia federal com Bolsonaro, em seguida tiraram dele qualquer hipótese ainda possível de coexistência pacífica com o STF. Em suma, quebraram suas pernas, retirando-lhe o último dos apoiadores midiáticos, a polícia e o Poder Judiciário. Agora (pensam) é bater em bêbado. Enganam-se.  Assisti a uma transmissão ao vivo de Bolsonaro semana passada, destas que se chamam “Live” em tempos de pandemia. Impressionante, ao lado da tela, a velocidade das tuitadas dos apoiadores, milhares em minutos, e talvez seja por isso que os detratores do presidente tenham se esmerado em golpear-lhe também os apoiadores em redes sociais. Para que caia e não se levante. Só esqueceram-se do povo, mas aqui há um conglomerado televisivo caprichando para pouco a pouco ir dilacerando a imagem presidencial aos olhos de seus eleitores.

 

Quem são os ditadores?

Dia desses precisei impulsionar minhas mídias sociais e meu trabalho pela internet. Não consegui através dos canais que todos conhecem muito bem: facebook, Youtube, e por aí vai. Ninguém quer acordar às seis da manhã com a Polícia Federal na porta, agora que virou crime de opinião não ser de esquerda. Mandei um texto para uma conhecida impulsionadora e agente literária que vem a calhar ser excelente pessoa e minha amiga. Pedi ajuda para publicar na grande mídia, como faço de vez em quando. Como sempre fazia, até pouco tempo atrás, época em que ainda era possível a livre manifestação de opinião. A resposta dela: o texto é muito “conservador” e “político” para ser publicado! Ora, leio muitos jornais diariamente, e neles observo que qualquer matéria, seja sobre arquitetura ou poesia, ou novela ou culinária, atualmente apresenta inevitáveis nuances políticas, simplesmente porque o brasileiro, de crise em crise, finalmente se tornou um consumidor desse tipo de assunto. Nada mais natural, portanto, desde que (eis aí o ponto) a matéria seja crítica ao governo federal. Se o texto não começar espinafrando o presidente, se não tiver um “fora Bolsonaro” no meio da história toda, você não publica não. A não ser em blogs (que não vai conseguir impulsionar) ou na ainda independente pequena imprensa de jornais e sites menores, tão comum no interior do Brasil, e que sempre fez a diferença. O interior é o Brasil que deu certo talvez também por isso. Não culpo as mídias sociais, porque afinal de contas ninguém quer ser réu. Tampouco culpo os influenciadores digitais ou, no meu caso, minha agente literária, sempre muito ética e competente. O notável é o aparelhamento ideológico do Estado que, a despeito de impedir um retrocesso conservador e autoritário, retrocede ele próprio a um período de trevas em que se fechavam jornais e prendiam-se jornalistas. Na época, ao menos, esses lamentáveis fatos se davam à revelia do Poder Judiciário. Hoje, ele é o seu protagonista.

 

Você se lembra?

Corriam os anos 2000, Lula no início de seu primeiro mandato. Classe média feliz, podendo ir à Disney com sua empregada doméstica, como diz o Paulo Guedes. Um correspondente do New York Times no Brasil, Larry Rothen, quer saber de Lula e vai ouvir sobre ele de Leonel Brizola. O aprendiz de guerrilheiro dos pampas, que não gostava de ninguém, muito menos de Lula, fala que nosso então presidente petista era um alcoólatra que vivia bêbado. Rothen publica o comentário no New York Times e por isso Lula quis prendê-lo, deportá-lo e cassar seu direito de trabalhar no Brasil. Mais recentemente, o site O Antagonista publicou matéria questionando a idoneidade do Ministro Dias Toffoli, e este e seus pares expurgaram as reportagens que lhes desagradavam do site, que quase foi retirado do ar. Naquela oportunidade, a grande imprensa considerou ditatorial a medida, equivalente à censura prévia abolida pela Constituição Federal. Depois, pararam de achar ruim, quando os alvos passaram a ser seguidores e apoiadores de Bolsonaro nas redes sociais. Prenderam ativistas, buscaram e apreenderam seus pertences e eletrônicos em inquérito presidido pelas próprias vítimas das críticas, que os senhores ministros apelidaram de “fake News”. Na verdade, esta interpretação é que é “fake”, mas essa já é outra história. Aqui, o importante é atentar para os falsos democratas de um país com um governo aparelhado pela esquerda em todos os seus poderes, instituições e escalões. Enquanto isso, o autoritário Bolsonaro suporta (o termo é esse) que lhe processem filhos, assessores e seguidores, que um cartunista o compare a Hitler, não prende ninguém, tolera uma imprensa que distorce e tira do contexto tudo o que ele diz ou já disse, a ponto de parar de dar entrevistas e ofender jornalistas. Mas nem por isto ressuscitou os delitos de opinião comuns em ditaduras de esquerda e direita, inclusive aquelas veladas presentes na manipulação cultural das massas.

 

“Anticiência”.

O STF agora quer “cuidar” das “pessoas anticiência”. Gostaria de me encontrar com o Ministro Luiz Fux, autor do neologismo, e lhe perguntar o que cargas d´água seria uma pessoa anticientífica. Alguém avesso à ciência? Então teremos que investigar, e buscar e apreender computadores, de diversos religiosos do país inteiro. Atenção, se você é evangélico, vai sobrar para você se por acaso defende a teoria criacionista de que viemos de Adão e Eva e não dos primatas. Já imaginaram prender um terraplanista porque contesta a circularidade do planeta? O sujeito vai ser colega de presídio da Sara Winter, esta perigosa agitadora que joga fogos de artifício defronte ao STF, outro crime bárbaro de pessoas anticientíficas. O que me preocupa não é o cidadão leigo crer nisso tudo como a voz da razão e da democracia – o povo brasileiro sempre foi massa de manobra ao longo do tempo, e é por isto que não há políticas sérias de educação com qualidade para a população pobre neste nosso melancólico país. O que verdadeiramente me enoja, me enche de asco, é presenciar a classe de juristas brasileiros permanecer impávida, calada, omissa e covarde diante do extermínio dos princípios republicanos mais basilares existentes na Constituição Federal, sob o pretexto de deter um suposto presidente autoritário, ele muito mais vítima do fascismo do que seu representante. Isso me faz lembrar mais do que nunca o mártir negro Marthin Luther King: “o que me apavora não são os gritos dos maus, mas o silêncio dos bons”.

 

Exemplo militar.

                Quem temia uma ditadura armada com Bolsonaro está se surpreendendo com a fleuma e prudência dos militares da ativa e da reserva que compõem o governo. Nada de desatinos verbais como os de Weintraub, nada de picuinhas com a Globo como Bolsonaro. Profissionais, falam o necessário, e a meu ver garantem não somente a governabilidade, mas a governabilidade sem sangue e enfrentamento. Ao menos até aqui. E o melhor homem desta república bolsonariana é, eu já disse, o vice presidente e general da reserva Hamilton Mourão. O povo brasileiro está vendo isso, o verdadeiro povo, porque a esquerda não é o povo. A esquerda é o intelectual, o professor de faculdade, o sindicalista, o universitário. O povo só é de esquerda quando ganha casa popular. Na verdade, nossas classes C, D e E são conservadoras, trabalhadoras, tradicionalistas e religiosas e isso não combina com casamento gay, cotas em universidades e presidentes presos por corrupção. As bandeiras da esquerda chocam-se inequivocamente com o pensar coletivo das nossas classes menos abastadas, com os ideais comuns da gente pobre que é a imensa maioria do povo e dos eleitores do Brasil. Essa gente não é burra, muito embora haja quem a trate como se fosse. Não tem cultura, e isso é assustador, mas é fomentado por um sistema que estrutura a falta de educação como ópio do povo, mais facilmente tangido assim como boi em uma manada.

 

Falta de cultura é isso.

                Há quem confunda cultura com inteligência. Lula é um homem profundamente inculto, que se vangloria disso. O ator Lima Duarte já disse que “Lula glorifica a burrice”, mas ele está longe de ser burro, é inteligentíssimo, manipulador, carismático, muitas destas qualidades indispensáveis a um homem público, outras nem tanto. A cultura  – na Constituição tratada como educação erudita e como herança antropológica (não confundam uma e outra por favor)- é o resultado da educação formal e da leitura. Os brasileiros leem pouco e mal e o nível de seu ensino público fundamental e médio é baixíssimo, dos menores do mundo. Portanto, não surpreende que o povo não tenha cultura. Arnaldo Jabor viveu no interior dos Estados Unidos em sua juventude e disse se assustar com a falta de cultura dos americanos classe média, caipiras, “red necks”, do meio oeste estadunidense. Disse que é gente bem menos letrada que os brasileiros mais humildes e nisto está errado, equívoco que certamente provém do fato de ser ele, Jabor, um citadino carioca. Se conhecesse bem os interiores e sertões, saberia que a realidade cultural brasileira não está somente nas favelas urbanas, mas também nas grandes imensidões despovoadas da caatinga, na vastidão dos pampas e na miséria ribeirinha. Esse povo é mais atrasado que o mais truculento capiau norte americano, mas nem por isso o brasileiro é burro. Precisa, aliás, ser muito inteligente para sobreviver aos desacertos da política, aos desmandos dos poderosos, aos azares da indigência social a que é submetido diariamente.

 

O Dito pelo Não dito.

“A liberdade é uma coisa tão preciosa que deveria ser racionada”. (Vladmir Lenin, ditador comunista russo).

 

Renato Zupo
Magistrado e Escritor

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