RENATO ZUPO

Magistrado • Escritor • Palestrante

Renato Zupo

Renato Zupo

Magistrado • Escritor • Palestrante

QUEM SOU

Nasceu Renato Zouain Zupo, neto de libaneses e italianos, em uma Belo Horizonte ainda bucólica e de menos de um milhão de habitantes, uma fazenda iluminada em que todo mundo se conhecia, todo mundo tomava ônibus e a classe média de onde ele veio se contentava em ter um aparelho de TV preto-e-branco e um fusquinha na vaga de garagem para um carro do prédio de apartamentos pequeno. Era a época em que havia quartinhos de empregada, que todo mundo fumava, que se bebia e se dirigia sem problemas, que viagem para a praia era uma vez por ano e olha lá.

Era nerd em uma época em que essa expressão ainda não existia em nosso cotidiano brasileiro. Talvez você pudesse traduzir quase literalmente para “cdf”, mas ele só era bom em português e história. Para o resto, dormitava em sala de aula, e sofria muito bullying, também em uma época em que o bullying já existia mas não tinha esse nome e ninguém se importava com ele (isso). Também, pudera: franzino, leitor voraz, introspectivo e com um gênio muito forte, além do sobrenome diferente e da rara inaptidão para o futebol em uma época em que todo menino jogava bola. Ou seja, era impopular. Até descobrir a cerveja, os barzinhos e o rock. Adolescente, virou cantor de uma banda de garagem, depois empresário metaleiro de um outro conjunto de cabeludos. Se divertia, mas nunca parou de ler. E de escrever. Era para ele uma compulsão, herdada do pai que sempre amou os livros e cultivava uma biblioteca considerável, depois aprimorada e engordada pelo herdeiro. Tanto gostava de livros que passou a vendê-los de porta em porta, dicionários Aurélio, enciclopédia Barsa, a obra completa de Jorge Amado… Foi por essa época que começou a escrever. Tinha uma necessidade enorme, compulsiva, de expressar suas ideias e sua arte, sua imaginação e sua criatividade, mas foi deixando tudo dentro do baú virtual de sua adolescência em escritos em papel pautado que se perderam nos caminhos de suas desventuras.

Escreveu letras de rock, poemas para namoradinhas, poesias sociais de cunho realista e durante sua fase “socialista”, que jovem que se preza e que passou regime militar tem que primeiro ser comunista para depois virar capitalista. Também fez histórias em quadrinhos, apesar do traço infantil. Mas foi assim que aprendeu a “amarrar” suas narrativas, com começo, meio e fim. Deixou o cabelo crescer até perdê-lo servindo ao Exército Brasileiro, onde passou longo tempo fazendo ordem unida, aprendendo a atirar, tirando guarda na guarita e em casa de general e limpando as latrinas dos banheiros durante as faxinas diárias do quartel.

Aprendeu muito assim. Conheceu ricos e pobres, pretos e brancos, gordos e magros. Toda espécie de gente que depois comporia seu mosaico ficcional. Saiu do exército e só podia prestar vestibular para uma dessas duas áreas: jornalismo ou direito. O primeiro, porque sempre amou escrever. O segundo, porque o pai era advogado e respiravam-se leis do nascer ao pôr do sol na residência da família Zupo. Durante o almoço o pai discorria sobre crimes dolosos e culposos. À noite, depois do jornal nacional, ouvia do patriarca noções da teoria dos crimes e das penas, da função ressocializadora do castigo penal, e por aí vai. Como não se tornar advogado?

Acabou matriculado na PUC de Beagá, no curso de Direito, onde foi um aluno mediano para cima, quase bom. Dava-se bem com Direito Civil, Constitucional e Penal, enganava quanto ao resto. E enganou bem! Formou-se sem dever matéria, já aprovado na OAB e meteu-se a advogar, primeiro na capital mineira, depois no Vale do Jequitinhonha, sul da Bahia, Rio de Janeiro… Era um compulsivo também para o trabalho. Gostava do trato com o cliente, com o povo, de escrever longas petições, até que estas se transformaram em sentenças, quando após cinco anos se sagrou aprovado no concurso para ingresso na Magistratura do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais.

E o Renato Juiz? Ele próprio assegura que é o mais improvável dos magistrados e que sua profissão é a mais áspera, dura e difícil que jamais conheceu. Certa vez assistia a um programa de auditório da TV americana em um canal fechado, em que num dos quadros se apresentavam as profissões mais difíceis do mundo. Havia dois candidatos: um desentupidor de bosta de esgoto de Nova York e um masturbador de touro premiado canadense. Em terceiro lugar, adverte Renato, está o Juiz. Por quê? “Imagine assistir a um jogo de futebol e não torcer para lado nenhum, fazer cara de paisagem e engolir seus sentimentos o tempo todo, representar um papel social até quando vai extrair um dente siso, não poder discutir com a esposa e nem xingar no trânsito, viver com um alvo no peito aguardando os destemperos dos criminosos que você condena nas cidades por onde passa, sem segurança nenhuma. E ainda ganhar mal, viver fora de casa e julgar a vida dos outros. Essa é a carreira do juiz. Mas é linda, contraditoriamente linda.” – define de maneira poética e ao mesmo tempo humorística, uma síntese de sua prosa.

Já são vinte anos como magistrado. Renato Zupo é um juiz rigoroso que acredita necessário aplicar castigos exemplares aos criminosos, mas para recuperá-los. Pensa que há pessoas que nascem psicopatas, mas a imensa maioria nasce boa e é a sociedade que as corrompe. Procura ser um médico de almas, e com isto, e com suas sentenças cheias de uma verve que encanta aos advogados que as lêem, não só se tornou um dos mais famosos juízes criminais do Estado de Minas Gerais, como também é referência, hoje, como um profissional extremamente produtivo e rápido. “Eu apenas faço o meu trabalho. – adverte. – Quero aplicar justiça com eficiência, o que não é possível quando se é lento, tardio, arrogante, quando se acha que se é dono da verdade. O bom profissional aprende sempre. Mas tem que aprender rápido, porque cada dia há uma lição nova. ‘”

Aprendeu tanto que resolveu partir para novas conquistas. Tornou-se professor universitário e colunista de jornais. Observava que as pessoas pouco entendiam do Direito, achavam que entendiam, falavam besteira, muitas vezes alimentadas por uma mídia também ignorante das leis e do mundo jurídico. Para Zupo, no Brasil, há não só duzentos milhões de técnicos de futebol, mas também outro tanto de bacharéis em Direito metidos a juristas. E como se fala besteira na sua área… Nascia então a coluna Justiça, hoje espalhada por todo o Estado de Minas Gerais com outro título: “Entretanto”, já há mais de vinte anos encantando seus leitores fiéis, revoltando uns com as opiniões radicais de seu autor, polemizando com assuntos seríssimos, transparente sempre, eis que seu autor sempre foi dos juízes e intelectuais mais politicamente incorretos que se tem notícia. Na coluna que depois virou blog e programa de Web TV, mas continua coluna, além de sua verve humorística, de seus conhecimentos jurídicos, conta causos e desce a lenha no que acha que está errado. Não tem medo de expressar suas ideias e sentimentos e coleciona admiradores fervorosos e críticos mordazes com o que fala: já disse, por exemplo, que nosso governo é de um socialismo disfarçado, que a gasolina no Brasil é na verdade barata (nós é que ganhamos pouco), que os juízes brasileiros desrespeitam contratos e que nossas leis inibem investimentos externos, que furar fila é um hábito corriqueiro em um país sem cultura ética, que votamos em quem nos paga a janta, etc… Este é Renato Zupo, o mais politicamente incorreto dos juízes.

Mas faltava algo. Sempre lhe intrigou, nos inúmeros julgamentos que realizou, a natureza do criminoso, sua psiqué riquíssima. Sempre quis saber a motivação do delinquente, seja ele um psicopata ou simplesmente um cidadão em uma situação de desespero e que tem os seus cinco minutos (as vezes fatais) de bobeira. E paga por isto com vidas alheias e com a sua liberdade. Zupo sempre admirou o romance policial, de suspense, de terror, gêneros de sua cabeceira. Com a carreira de magistrado, aprendeu que muitas vezes a realidade é muito mais rica que a ficção, e tentou transpor para o papel uma mescla de ambas: nascia assim Verdugo, seu primeiro romance policial, no qual procura explicar porque o homem mata. E chega, com o leitor, a uma conclusão chocante: todos somos capazes de exterminar nosso semelhante, basta que tenhamos a necessária provocação, basta que os limites de nossa resistência psicológica sejam atingidos de maneira contundente por um agente provocador externo.

Zupo, então, já havia enveredado por ensaios jurídicos, poesias, crônicas, com contos publicados em revistas literárias. No romance, ganhou asas e voou de vez. Com Verdugo mostrou ser um escritor sensível, um excelente contador de histórias, mas com enredos ricos, personagens profundos, passagens curiosas, episódios divertidos. Qual o gênero de sua prosa? “Isso não existe mais. – explica. – Literatura não se divide em gêneros como se vê em prateleiras de locadoras de filmes, em que há o setor de comédia, outro de drama, etc… Na literatura moderna, se ri, se chora, se aprende, tudo dentro de uma mesma obra. Um bom romance tem que entreter e surpreender, se o faz ensinando, melhor ainda.

É o escritor que procurou escrever aquilo que sempre gostou de consumir como leitor assíduo que sempre foi. Publicou Verdugo pela Editora Livro novo de seu amigo Zeca Martins. Logo viria o segundo, , “Rio da Lua”. Nele, o autor explora um universo ficcional semelhante, mas parte para outras aventuras e indagações. Quer discutir o suicídio, e cria uma cidade lúdica no interior de Minas Gerais onde se desenvolve uma trama repleta de esoterismo, magia negra, mistério e morte. Um verdadeiro whodunit whodunit (“quem matou?”) que só se resolve no final à moda dos grandes romances de Agatha Christie. E ele desafia o leitor, seja ele um jejuno a procura de emoções ou um experiente detetive de poltrona, a tentar descobrir o mistério antes do fim.

Ligou o projeto do segundo livro a um objetivo pessoal e social: já havia estado na Europa, na opinião dele, como todo brasileiro deve ir. Como mochileiro, dormindo em albergues, pegando metrô, sentindo a vida das pessoas de lá, convivendo com os conterrâneos que moram fora. Com isso, havia descoberto que no velho continente há muitos brasileiros que vendem o almoço para comprar a janta, com vida duríssima, saudades da terra e de sua cultura pátria. Ou seja, exilados culturais. Resolveu levar o Rio da Lua para o público lusófono, falante de português, que habita a Europa. Com economias próprias, contatos e ajuda de amigos imigrados e de empresários que empregam brasileiros lá fora, além do Itamaraty e de escolas de idioma que o receberam por lá, visitou quatro países: Suíça, Itália, Espanha e Portugal, distribuindo gratuitamente exemplares do Rio da Lua para brasileiros, portugueses, e os filhos deles, ou simplesmente para europeus de outras nacionalidades interessados em falar e ler o português brasileiro ou aprender um pouco de nossa cultura.

Foi uma experiência riquíssima – rememora Renato Zupo – Visitei as casas de Cultura do Brasil, que divulgam a nossa cultura lá fora, e palestrei para gente de todo o mundo interessada em conhecer nossa cultura.” Mas não a cultura estereotipada, aquela que resume nosso país às bundas de mulatas, caipirinha e carnaval. “Meu objetivo era mostrar que somos mais, temos um dialeto urbano e outro rural, vivemos com um pé no século passado e o outro no futuro, e o nosso pensar é também assim, residual, fragmentado. Sem entender isso, você não entende o Brasil.” – resume o autor.

Atualmente, ele continua produzindo livros nas mais diversas áreas do conhecimento humano. Para tratar da psicopatia – um tema que sempre o intrigou – publicou “Monstruário – o Bestiário da Maldade”, coletânea de novelas que tratam da maldade humana, sem limites e inexplicável, mas real e imorredoura, infelizmente. Com essa obra, publicada pela editora Novo Século, percorreu presídios do Brasil inteiro, palestrando sobre psicopatia e maldade para presos, encarcerados, viventes do sistema prisional. Palestrou sobre literatura e doou livros em cadeias de toda ordem: esteve em presídios e penitenciárias convencionais, APACs, pavilhões de segurança máxima e mínima… Em todas as cadeias, conversou com um público de reeducandos sedentos de cultura e conhecimento, que lhe mostraram uma nova faceta do brasileiro pobre e abandonado pela sorte: estão famintos por aprendizagem e ensino de boa qualidade, algo que o governo brasileiro infelizmente ainda não dá. “Falta isso – afirma Zupo – falta só isso para entrarmos de vez no primeiro mundo. Resolvida a educação, resolve-se a segurança. É um passo pequeno, mas delicado e definitivo e que tem que ser dado.
Sempre lhe perguntaram como conseguia tempo para ser polidáctilo, multi-tarefas, um “Bombril” das artes e ideias. Para responder essa pergunta resolveu elaborar sua primeira obra de não ficção: “Inteligência Prática”, em parceria com a psicóloga e coaching da mente Simone Afonso de Castro. No livro, já esgotado, procura explicar como consegue fazer com que o seu dia tenha quarenta e oito horas – para produzir tanta coisa de qualidade, textos, sentenças, estudos, ensaios e romances. Além do palestrante e professor admirado que sempre foi.

Como se não bastasse, Renato Zupo é meio dinossauro e nunca gostou de tecnologia, mas a geração “Y” e o mundo virtual finalmente o forçaram a entrar de cabeça na comunicação digital. Virou blogueiro e youtuber. Seu programa semanal “Entretanto” é visto por milhares de pessoas no mundo todo, sua coluna também é um blog visível em sua página de internet e também em todas as redes sociais. Não satisfeito, criou com parceiros uma plataforma de Ensino à Distância (EAD): o “Simplifica Direito”. Ah! E resolveu empreender e idealizar uma start up curiosíssima e que vale a conferida: o “Palavra Pronta”, desenvolvida e gestada por sua esposa e uma equipe de sócios nerds e redatores de internet, blogueiros voltados para marketing digital e de conteúdo.

Isso tudo é o cara, Renato Zupo. Você pode discordar dele, até não gostar dele, mas é impossível ignorá-lo.