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RENATO ZUPO

RENATO ZUPO

Magistrado • Escritor • Palestrante

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direita e esquerda 3

Os liberais

ENTRETANTO
Todo o pensamento liberal é embasado em um termo: “tolerância”. Conversei com um amigo de Norberto Bobbio que me garantiu que o velho sábio italiano fica fulo da vida quando ouve prostituírem essa palavra. Tolera-se aquele ou aquilo que é menor – fuzila Bobbio, sempre que pode criticar o emprego errado do termo. No entanto, ficou para a posteridade como um bom sentimento, a tolerância… Para os liberais, que são aqueles sábios de bar e universidade que não brigam, mas ficam criticando as posições dos lutadores, a tolerância é imprescindível em um mundo livre, porque só ela permite a (atenção) coexistência pacífica entre os opositores e pensadores de ideologias distintas. Assim, através da tolerância, evangélicos e católicos podem se frequentar e conviver em sociedade, judeus e árabes, brancos e negros, etc… Nunca vi funcionando bem, no entanto. Minto um pouquinho: em uma economia superdesenvolvida em que só se vê pelas ruas gente comprando, gastando ou ganhando dinheiro, sem se preocupar com o pensar alheio, talvez seja possível. Fora isso, é uma utopia.
O Bom do comunismo.

Descobri tardiamente que a maioria dos marxistas que conheço jamais leram Marx. Aliás, socialista é tudo leitor de índice e orelha de livro, e é só, e estamos conversados. Conheci muito poucos pensadores de esquerda realmente cultos, porque o saber é incompatível com o louvor socialista. Marx, por exemplo, em sua obra máxima, O Capital, via o socialismo como um caminho a ser percorrido, não como um fim em si mesmo. Via a economia estratificada e estatizada que preconizava apenas como um trecho do percurso que desembocaria, ao final e aí sim, em uma economia aberta, porém mais justa e menos baseada no binômio capital x trabalho. Poucos Marxistas defendem isso, porque não o sabem. Apesar dessa ignorância, o comunismo de Marx foi muito bom para todos e vou explicar o motivo. Antes da ideologia socialista vigia o estado industrial pleno e o liberalismo econômico irresponsável: crianças eram postas para trabalhar por até dezesseis horas diárias, não havia direitos trabalhistas, mulheres eram escravizadas nas tecelagens e seus salários pagos aos maridos. Nunca se ouvira dizer de previdência social. Estamos falando do Século XX, hein? Não da França pré-revolucionária do Iluminismo. Pois esse estado de coisas só mudou e a política econômica dos governos passou a ser mais humana pelo medo do comunismo demagógico que arregimenta os pobres sempre. Ou seja, se os governantes capitalistas não dessem alguns direitos ao povo, logo apareceria um ditador com ideias revolucionárias contando histórias de faz de conta para arrebanhar nossas massas trabalhadoras. Na Alemanha nazista foi assim que sucedeu. O Marxismo funcionou no mundo como um bicho papão dentro do armário, um monstro imaginário a ser evitado a qualquer preço.

 

A Guilhotina.

Falei da França e da revolução francesa e me lembrei de dois políticos muito em voga no Brasil: Temer e Bolsonaro. Lembrei porque falar da queda da bastilha e da monarquia francesa remete ao rei Luís XVI, marido da famosa Maria Antonieta, ambos guilhotinados pelas massas populares revoltosas com a ostentação da corte de nobres em confronto com a miséria do povão. Passava-se fome na França do Século XVIII e isso precipitou uma imensa revolta social que culminou no terror: todos os nobres foram exilados ou perderam literalmente as cabeças na guilhotina. Ocorre que Luíx XVI, ao contrário do que se pensa, era um bom sujeito, tão bom que era bobo. Queria agradar a todos e mudava a política econômica ao sabor dos ventos ou da opinião pública. Se havia repulsa a um ministro, era exonerado. Um tributo era considerado injusto? O bom Luís o eliminava. Reis e governantes em geral precisam de força! Podem ser democráticos, ouvir o povo, mas precisam ao menos ter opinião formada. São, aliás, formadores de opinião e não seguidores do pensar alheio. O monarca depois decapitado não tinha personalidade e o povo se sentiu abandonado, desalentado, o que culminou em morte e sangue e guerra intestina. Michel Temer é assim. Quer ser popular a qualquer preço e nos deixa a todos inseguros. Bolsonaro é o contrário e não está nem aí para a opinião pública. Entre um e outro há um abismo imenso a ser preenchido até as próximas eleições.

 

Democracia sólida.
Apesar desse teatro político do absurdo que vivemos, há motivos para ter esperança. Após a prisão de Lula, seus títeres e seguidores vociferaram palavras de ordem, ameaçaram pancadaria e paralisação geral, fizeram arruaças e vandalizaram. Temeu-se uma guerra civil e as ameaças disso não somente não eram veladas, como eram gritadas de maneira estridente pelos que sobraram do PT, do lado de fora da cadeia. Passadas semanas, o que aconteceu? Nada de relevante. Está tudo bem e nos preparamos para uma copa do mundo e uma eleição presidencial. Não houve revolução e as instituições democráticas se mostraram sólidas. Os brasileiros estão preocupados demais em ganhar o pão de cada dia para perder tempo com quem já passou e perdeu o trem da história. A vida continua, companheiro.
O dito pelo não dito.
“De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.” (Rui Barbosa, político e jurista brasileiro).
Renato Zupo,
Magistrado e Escritor

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