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Renato Zupo

Renato Zupo

Magistrado • Escritor • Palestrante

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Os artistas

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O problema não é que os artistas brasileiros resolveram radicalizar contra o impeachment ou contra o atual governo interino de Michel Temer. Ou que foram ao tapete vermelho de Cannes nos envergonhar como se fossemos uma republiqueta latino-americana que não consegue resolver seus próprios problemas políticos. O problema não é o Zé de Abreu cuspindo na cara dos outros em restaurante ou o Chico Buarque tomando as dores da parentada empregada pelo governo Dilma. O problema somos nós, brasileiros comuns, que estereotipamos e rotulamos a tudo e a todos, e quando vemos artistas – gente bonita e que fala bonito – acreditamos que se trata de um grupo homogêneo e do bem, dedicado aos interesses da nação e preocupados com o bem estar das classes desfavorecidas. Nos esquecemos que a classe artística, como todos os outros grupos profissionais, possuem todo tipo de gente: os bons e os ruins, os trabalhadores de fato e os vagabundos  que fingem trabalhar, os que são áulicos do poder e vivem puxando o saco dos governantes e aqueles outros, sinceramente engajados no bem estar social. Há artistas de todas as bandeiras e todas as tendências e há \”rachas\” entre eles como em todo quadro de pessoas politicamente ativas. Artistas não são super  heróis que tudo podem e que se encontram livres de qualquer critica ou oposição. Alguns deles dão péssimos exemplos às famílias e ao eleitorado, à nossa juventude: abusam de drogas, fazem apologia da desordem, arruínam sucessivos casamentos com ares de leviandade, se expõem de maneira doentia, jogando-se no fundo do poço de sua própria sexualidade. Tanto assim que a classe política já acordou para essa diáspora da classe artística e parou de usar boa parte dos astros e estrelas de nossa constelação global para propagandas político-partidárias. Perceberam que, conforme for e com quem for, a coisa toda acaba virando um tiro no pé. Respeitar a classe artística é, sobretudo, entendê-los humanos e, como humanos que são, suscetíveis a diferenças, erros e acertos.

O Ministério da Cultura.
Uma das primeiras medidas do governo interino Temer foi eliminar a profusão de ministérios criados por Dilma Roussef para distribuir cargos públicos em troca de apoio político – o que, todos vimos, de nada adiantou e só serviu para aumentar exponencialmente os gastos públicos. Algumas pastas foram simplesmente eliminadas e outras, sua maioria, incorporadas a outros ministérios, como no caso do Ministério da Cultura, depois de décadas de volta ao Ministério da Educação, como o era à época do saudoso \”MEC\”. A medida foi mais um motivo para novo cabo de guerra com a classe artística, que desta vez ganhou a parada para impedir a encampação e devolver a autonomia ao Ministério da Cultura, o nosso muito querido \”Minc\”. O carro chefe da pasta e talvez principal motivo de inconformismo dos profissionais de cultura, são os benefícios da Lei Rouanet que decorrem da renúncia fiscal. Para quem não conhece, explico: os empresários, ao invés de pagarem certo percentual de imposto ao Leão, direcionam o recurso à projetos culturais para obter lá na frente compensação tributária e, indiretamente, marketing gratuito, com isso fomentando a cultura. A ideia foi belíssima, dos tempos do governo Itamar Franco, muito bem realizada ao longo dos anos e mandatos. Em meus projetos culturais particulares, já me vali da Lei Rouanet. No entanto, em época de vacas magras, de recessão, de grave crise institucional, acho que se tem que cortar em tudo, inclusive na cultura, e não sei se é hora de renúncias fiscais em um país que padece, justamente, de um brutal déficit fiscal. Brasileiro que honra a bandeira e o hino tem que aprender a cortar na própria carne e a lutar pelo conjunto da obra econômica, e não por seus próprios interesses individuais. Não se trata, aqui, de encarar com olhares reducionistas a cultura nacional ou o funcionamento de um ministério próprio da cultura, mas entender que é imperioso economizar em tudo, inclusive na cultura, enxugando-se ministérios e revendo-se políticas que fragilizam a arrecadação de impostos.

Ajuste fácil.
Vendo Henrique Meirelles falando sobre a atual crise, lembro-me daqueles professores de faculdade sóbrios e que explicam aos alunos problemas intrincados como se fossem o abecedário de um imbróglio simples de solucionar. E acho que vai ser, no final das contas. Lembro-me, também, de Henrique Meirelles subir a rampa do planalto logo após a primeira vitória presidencial de Dilma, oferecendo-se humildemente para perseverar controlando as finanças públicas, ele que veio para estabilizar o real com FHC e permaneceu no poder com Lula, que entende o suficiente de futebol (ao menos disso) para não mexer em time que estava ganhando. No entanto, foi repelido por Dilma e seu ego megalomaníaco de autosuficiência. Deu-se que estamos onde estamos. E de onde sairemos com bom senso e a passos lépidos, demonstrando que a crise pode ser profunda, mas é óbvia, e sua solução passa pela seriedade do trabalho e da contenção de gastos e despesas públicas – algo também fácil de se conseguir, desde que se exorcize o populismo governamental.

 

Renato Zupo,
Magistrado e Escritor

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