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RENATO ZUPO

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O Goleiro na Hora do Gol

ENTRETANTO

Aquele campinho de terra batida, típica várzea, iria abrigar dentro de instantes um clássico de proporções inusitadas naquele bairro da periferia de uma grande cidade, em uma peleja de domingo que marcaria um encontro especial entre o time dos casados e o time dos solteiros. Não um clássico qualquer, mas aquele jogo serviria para inaugurar as camisas recém adquiridas através de uma vaquinha dos próprios jogadores e de seus familiares. Até então os times dividiam-se entre aqueles sem camisa e os com camisa. Certa vez Eliomar, beque dos solteiros, conseguiu dois jogos de camisa de Cruzeiro e Atlético, mas foi uma briga ferrenha entre os atleticanos que teriam que jogar com a camisa do rival estrelado e os cruzeirenses que teriam de usar o manto adversário. Não deu certo e acabou mais cedo. O negócio era providenciar camisas próprias.
E providenciaram. A esposa de Doquinha, técnico dos casados, criou a logomarca do time do marido, um escudo com um caixão e uma flor, como se a rememorar o fim das belezas da vida, o símbolo do matrimônio. Os solteiros preferiram aceitar os conselhos de Durval, seu lateral direito, que “colou” da internet uma bunda morena de biquíni com um caneco de chope ao fundo, dentro de um escudo com chifrinhos. Depois se reuniram em uma festinha para inaugurar a laje da casa do centroavante dos casados, e ali cotizaram a encomenda das camisas, vermelhas com listras brancas a dos casados, verdes com detalhes amarelos para os solteiros. Encomendaram tudo de uma loja de uniformes, ficou pronto e um dos jogadores que não tinha o nome no SPC pagou com três cheques pré, enquanto se passava o boné aos poucos para cobrir os borrachudos.

Depois que as camisas foram entregues prontas foi só marcar o grande dia, para variar domingo, dia da folga de todo mundo, até dos que não trabalhavam, dentre eles Elisson porque era só estudante e nos finais de semana compunha a zaga dos solteiros, e de Ezequiel dos casados, eternamente desempregado porque tinha problema de cabeça que não lhe deixava ficar em emprego nenhum, até conseguir atestado, perícia e encostar pelo INSS já fazia dois anos, mas para jogar no gol do seu time ele estava bonzinho da silva. Pena foi que Pedro Paulo, cabeça de área dos solteiros e seu capitão, era motorista de ônibus e naquele dia estava de serviço. A tarja de capitão, na verdade um pedaço de bandana reaproveitado por uma costureira, ficou com o centroavante do time, Jesterton. Na cabeça de área tiveram que improvisar o irmão do técnico do time, que era casado mas era bom de bola, apesar do outro time chiar porque, afinal de contas, solteiro é solteiro e casado é casado.
Por falar nisso, e os amigados? Quando o amancebado era mau jogador, tudo bem, ninguém queria, não tinha discussão. Mas se o mancebo fosse bom de bola, cada um dos lados o queria para si. Foi assim com Cecivaldo, que era tratorista e noivo da doméstica Jurema fazia anos, e de uns tempos para cá passara a morar com ela. Como era excelente no cabeceio, os dois times lutavam pelo seu passe, os casados alegando que “amigado de fé casado é”, os solteiros afirmando que Cecivaldo era noivo e presumivelmente iria se casar, e que portanto não era ainda casado. Cecivaldo só ria e dizia que só noivou porque depois do noivado já podia namorar pelado, e que estava só morando junto, casamento era outra coisa para outra hora ou outra encarnação. Claro que só falou isso porque Jurema não estava por perto, mas com esse argumento acabou nos solteiros. Em compensação outro amasiado, o Nestor, para contrabalançar acabou na meia-direita do adversário porque o Doquinha, que além de técnico dos casados era bacharel em Direito, disse que a constituição iguala casados e juntados.

Encontrar um juiz foi mais difícil. Tinha que ter moral para não tomar porrada no primeiro pênalti marcado e também alguma noção de apito. Também não podia ser barrigudo que não agüentasse correr atrás da bola os 60 minutos (com dois tempos de 30, que ninguém suportava mais que isso). Acabaram escolhendo o Sargento Mendes, militar da reserva que era respeitado por todos e atualmente até integrava a torcida organizada de um time de segunda divisão e dava palpite em reunião na diretoria do clube.
Para depois do jogo haveria uma festa improvisada no botequim do Claudecir, que largou emprego de peão em refinaria de petróleo e com o acerto montou aquele comércio que não andava muito bom das pernas em termos de finanças, mas que servia para o Claudecir ter desculpa em casa para encher a cara com os amigos sem se preocupar muito. Claudecir não jogava em nenhum dos dois times, pois já passara dos cinqüenta e tinha proibição médica, mas gostava da farra e tinha amigos dos dois lados do campo. Aliás, era sogro do Doquinha (dos casados), mas compadre do Adonias (armador dos solteiros). Abriu o bar no domingo especialmente para a resenha esportiva após a peleja e encomendou com Dona Cacilda, mãe do Cecivaldo, uma feijoada fora de época porque dia de feijoada é sábado, mas aquele era o prato preferido da moçada e a especialidade de Dona Cacilda, então que se danasse o calendário. A turma pagou os ingredientes, mais a carne de segunda para o churrasquinho preliminar assado pelo próprio Claudecir em uma churrasqueira improvisada nos fundos do lote do bar, além das cervejas que chegaram quentes mas já estavam no freezer do botequim no aguardo dos heróicos futebolistas, verdadeiros gladiadores do esporte, que não tardariam após a peleja.

E logo chegaram. O placar não importava. Estavam todos com uma alegria estranha, descompromissada com resultados. Sabia-se pelos comentários que Cecivaldo não viu a cor da bola e que Diomedes, beque dos casados, fez valer sua experiência de ex-profissional fungando no cangote dele o tempo todo, não deixando o negão jogar. Também se disse que Jesterton acertou uma bola na trave e acabou trocando tapas com Elisson no centro do gramado, sendo ambos advertidos com uns cascudos pelo árbitro Sargento Mendes, que havia esquecido os cartões em casa. Mas o que mais se comentava era a incrível defesa de Ezequiel, o inválido dos casados, que deu um sem pulo para aparar um chute no ângulo de Adonias, subiu igual passarinho ou acrobata, e na descida ainda desviou uma cabeçada no rebote que ninguém viu quem deu, mas que rendeu uma defesa linda parecida com a de Gordon Banks no Brasil x Inglaterra da Copa de 70. Daqueles lances que nos fazem lamentar que não existam replays para peladas de rua, assim como não há reprises para os melhores momentos da vida.

 

Renato Zupo,
Magistrado e Escritor

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