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Renato Zupo

Renato Zupo

Magistrado • Escritor • Palestrante

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roubo celular

O Assalto ao Nadador

ENTRETANTO

Acho que entendi o que aconteceu com Ryan Lochte. De uma certa maneira ele não mentiu e foi, de fato, \”assaltado\”, em termos leigos. Quase aconteceu comigo no mesmo Rio de Janeiro repleto da malandragem carioca que vitimou Lochte. Para quem não se lembra, ele e colegas da natação norte americana saíram para uma farra após ganharem suas medalhas, encheram a cara e depois voltaram com menos dinheiro e avisando que haviam sido \”assaltados\”. Contaram histórias contraditórias e a polícia desconfiou que mentissem, a ponto de impedir o retorno pra casa de alguns deles, retendo-lhes o passaporte. Depois, a suposta farsa foi desmascarada, e Lochte relatou, já nos EUA, que na verdade fizeram bagunça em um posto de gasolina e os seguranças os obrigaram a arcar com o prejuízo. Apesar da mentirada, realmente feia e péssima para a imagem dos atletas olímpicos, o que os nadadores americanos sofreram foi uma bruta extorsão. Obrigaram-nos a pagar por algo que disseram que eles fizeram, valores altíssimos que lhes foram impostos por seguranças, e não  por policiais, e ninguém poderia fazer isso. Devem certamente ter usado de violência com eles, porque os brutamontes americanos não iriam afinar apenas para cara feia. Então, se não foi roubo, foi extorsão. Lochte e seus amigos foram de qualquer maneira vítimas do Rio de Janeiro e de sua malandragem tão corriqueira.

Eu e o Rio.
Como falei que também quase fui extorquido, me resta contar como foi. Voltávamos eu e minha equipe do lançamento do meu primeiro livro, \”Verdugo\”, em Copacabana, em plena orla da famosa praia carioca. Optamos equivocadamente por abandonar a Avenida Atlântica e ir por dentro, longe da praia bem iluminada e já eram umas onze da noite. Mas tudo bem, pensei, estávamos em cinco: Eu, Gustavo e Edgar da Dix7, Antonio Carlos SS e Reinaldo Finholdt, que batia as fotos para o evento. Tenho a mania de andar rápido e quase correndo, não sei passear, e acabei deixando a turma um quarteirão para trás, quando passei defronte a um supermercado que estava fechando. Havia dois casais na porta, as mulheres de bicicleta e seus homens que ao me verem se distanciaram, quase se esconderam. Aquilo já despertou minha suspeita, mas continuei caminhando a passos largos. As mulheres, duas louras de bike, começaram a ziguezaguear sobre a calçada descaradamente na minha frente.  Eram bem simpáticas, se é que me entendem. Sóbrio como estava, voltando do trabalho e cansado, não abri espaço para gracejos e estranhei na hora, porque não sou nenhum Tom Cruise em matéria de beleza e as mulheres haviam apartado dos seus homens só pra me encantoar. Parei de andar e fechei a cara, aguardando a chegada da \”cavalaria\”, meus amigos a uma quadra de distância. Minhas \”seguidoras\” viram que eu havia entendido a malandragem e saíram da calçada com suas bicicletas, desaparecendo. Foi aí que percebi uma viatura com dois  PMs na esquina, ambos me olhando feio, e então entendi tudo: pensavam em me provocar, confundindo-me com um boêmio. Esperavam que eu metesse a cara com a mulher dos outros, os rapagões apareceriam e eu provavelmente seria agredido, enquanto os policiais apeariam da viatura para propor um \”acordo\” para não me levar pra delegacia por provocar a desordem toda! Acordo financeiro, claro. A cariocada já comete esse tipo de malandragem há bastante tempo e eu escapei de boa. O nadador americano Lochte, menos acostumado às extorsões noturnas, caiu como um pato. Sei que há gente boa que é do Rio, cariocas gente finíssima e conheço vários, mas não gosto de lá. Não me sinto seguro por lá. Ninguém se sente.

Carmem Lúcia Antunes Rocha.
Fui seu aluno na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, e me agrada lembrar disso, mas se disser que admiro incondicionalmente a Ministra Carmem Lúcia estaria mentindo para meus diletos leitores e nunca faço isso. A verdade é que não era bom aluno na disciplina dela, Direito Constitucional, a ponto da então professora Carmem me buscar um dia do lado de fora da sala, para onde eu tinha ido matar o tempo, a aula e fumar um cigarro. Me disse que eu era um desperdício de intelecto, vejam só! Enfática, afirmou que eu tinha capacidade para muito mais do que demonstrava e que minhas notas baixas não retratavam todo o meu potencial inexplorado. É claro que não a ouvi. Aos vinte anos, você raramente ouve bons conselhos e, quando ouve, não os aceita. Essa era a Carmem. Minhas colegas tentavam puxar-lhe a língua e perguntavam de sua vida pessoal, mas a futura ministra sempre foi fechada, blindada, e só respondia que era casada com o Direito e tinha raiva de dentista. Mineira de Montes Claros, sei que adora lingüiça, carne de sol, pequi. Cachaça não, que não ingere álcool. Seja muito feliz, Carmem, minha antiga professora, acho que você estava certa no que me disse e hoje procuro me desperdiçar menos. Nós brasileiros precisamos muito de ti.

 

Renato Zupo,
Magistrado e Escritor

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