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RENATO ZUPO

RENATO ZUPO

Magistrado • Escritor • Palestrante

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Moinhos de Vento

ENTRETANTO

A batalha entre o Dom Quixote, obra prima de Miguel de Cervantes, e os moinhos de vento é, desde seu início, um duelo perdido para o personagem título da obra seiscentista, o primeiro romance moderno da história. Quixote – como todos deveríamos saber – é um louco sonhador que, de tanto ler livros de cavalaria, sai mundo afora acreditando-se um cavaleiro andante matador de dragões e salvador de donzelas. E eis que se depara com moinhos de vento que julga sejam  gigantes malfeitores. E lhes dá combate. E perde. Os moinhos são inermes, broncos, toscos e resolutos em girar de maneira impiedosa suas inevitáveis pás que atuam como porretes sobre a saúde já precária e o corpo débil e magricela do nosso herói medieval, prostrando-o de um átimo e como era de se esperar. Para quem valoriza a cultura literária, em nosso país, e batalha por ela, também não há nesta geração qualquer chance de vitória. A batalha pela difusão de nossas letras é, desde o começo, uma batalha perdida para a ignorância e para a pior miséria de todas, que é a miséria cultural.

Por aqui não falamos Português. Insisto muito nisso, porque considero uma tolice ouvir o português lusitano e crer que estamos diante do mesmo idioma. Para que se tenha uma ideia, novela brasileira em Portugal é dublada ou legendada. Podemos estar falando da mesma língua? Claro que não. Aliás, genericamente não compreendemos nossa própria gramática. Falamos um misto de brasileiro, vagabundês, caipirês e burrês. A televisão, essa fábrica de mentecaptos preguiçosos, causou em nossos jovens um efeito devastador ao longo de décadas de seu predomínio sobre as letras, os livros, os saraus e as conversas saudáveis com gente mais velha e adulta à beira da fogueira ou na mesa da sala de visitas. Então, eis que chega a internet, e com ela as redes sociais que terminam por sepultar em definitivo qualquer esperança, por mais remota que seja, de recuperar alguma coisa do intelecto e da cultura das novas gerações, porque os jovens brasileiros desaprenderam nossos costumes e nossa história, que deixaram de buscar nos livros. Sequer tentam entender um idioma e uma linguagem que jamais dominaram e que lhes parece um código indecifrável. Perderam-se na cessão gratuita de múltiplas informações que não processam de maneira seletiva, e tampouco adestram seu juízo crítico aferindo a importância, e a veracidade, das notícias que lhes chegam de todo o mundo em milésimos de segundo.

Ou seja, o jovem brasileiro, que já lia muito pouco, agora também não conhece o mundo ao seu redor e tampouco pensa criticamente. Não filosofa como outrora e não questiona como deveria. E o nosso adolescente, o nosso jovem adulto, é o brasileiro do futuro. É o engenheiro, o advogado, o médico, o político, do amanhã. É quem irá nos cuidar na nossa velhice, quem nos representará nas eras vindouras. Em suma, com eles nos gerindo e no poder, estaremos lascados.

A culpa é nossa. Nós, formadores de opinião, escritores, professores, gestores públicos e privados, pais e mestres, fomos omissos. Da geração de 1970 para cá não soubemos educar nossos filhos. Vimos a vaca indo para o brejo e lhe cantamos uma cantiga de ninar paquidérmica e covarde. Nos aboletamos à janela para ver a banda de Chico Buarque passar, e com ela passaram também as nossas esperanças de transformação social através da difusão da cultura, porque somos todos uns acomodados, essa é que é a torpe verdade. Criamos filhos como quem cria amiguinhos. Ou acreditamos que eles já vêem criados das maternidade, assim como os celulares e computadores já saem programados das fábricas e lojas de informática.  Há escolas brasileiras públicas que se encontram entre as piores do mundo, em que  não há reprovação e onde se capacitam professores que tampouco lêem.  É essa gente que orienta nossos jovens, nos ajuda a educá-los, é que vai para a TV ou para os palanques políticos dizer que a educação melhorou e que os índices de analfabetismo estão em queda.

Quixote, quando moribundo, dizia ao seu fiel escudeiro Sancho Pança que nosso mundo era cinza, de chumbo, triste, e que ele ali estava, e ali morria, para alegrar o mundo, transformando todo aquele chumbo em ouro. O literato, o artista, o escritor é, também, um alquimista da própria vida, que doura o mundo com sua mensagem sublime de amor às artes, valorização da educação e fomento da cultura entre nossos jovens, fornecendo-lhes o exemplo de um Quixote incansável em sua batalha inglória.

 

Renato Zupo,
Magistrado e Escritor

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