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Renato Zupo

Renato Zupo

Magistrado • Escritor • Palestrante

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Persona diferente al resto

Minoria? Qual minoria?

ENTRETANTO

Procuro evitar  assuntos ainda muito recentes nas minhas colunas, programas e blogs. Tenho vários motivos para isso: já apanhei muito me antecipando aos fatos e procuro certo distanciamento, senão histórico, ao menos prático e que propicie uma manifestação crítica mais fria. A paixão não combina com minhas entrelinhas. No caso da vereadora carioca assassinada, Mariele Franco, prefiro ao menos aguardar que sejam apurados os fatos. Por agora, inevitável somente desdizer o que ouço diariamente em todas as mídias, e que se refere á luta da finada política pelas minorias. A informação distorcida é fruto da pressa em comover. A qual minoria se dedicava Mariele em sua luta? Negros? Ora, há mais de cinquenta por cento de negros no Brasil. Se contarmos os pardos, então, os não-brancos é que se tornam a minoria ínfima, principalmente nas periferias, bairros pobres e favelas das cidades. Por falar nisso, se a vereadora defendia pobres das comunidades, também não estamos falando de minorias. Só no Rio de Janeiro de Mariele quase dois milhões de pessoas vivem da linha da pobreza para baixo, habitando barracos e comunidades entrincheiradas entre a praia e a guerra do tráfico. Ou seja, favelados não são minoria, ao menos no Rio. Resta o homossexualismo que a vereadora defendia por conta de seu decantado lesbianismo, e aí é que não concordo mesmo. Trinta por cento da população adulta brasileira é gay ou bissexual, dentro ou fora do armário. Nenhum preconceito nisso. Só não me falem que GLBT é minoria desprotegida porque isso é uma grande bobagem. Gays não são uma minoria numérica significativa e tampouco estão desprotegidos. Mariele era inteligente e agitava bandeiras politicamente corretas, brandindo sua espada de argumentos vituperados pela internet. Também morreu pela espada.

Mártires.
Só se pode matar na defesa da própria vida ou  do semelhante – a lição é jurídica, moral, bíblica. Quando me vejo diante de um homicídio injustificado e cruel, o que me assombra é a selvageria do ser humano, sua desfaçatez e desprezo pela vida dos outros, sua irresponsabilidade social e cívica e o péssimo exemplo que o homicida empresta a uma geração que banaliza a violência, tornando-a “comum” a tal ponto que ninguém mais se assusta quando ouve falar de um estupro ou de um assalto seguido de morte. Choca mais ainda a burrice dos assassinatos ideológicos, e torço para que a morte da vereadora Mariele Franco não se trate de um desses ignóbeis exemplos. Quando se mata um adversário político, um rival ideológico, um inimigo de pensamento, simplesmente para calá-lo ou intimidar, se produz um mártir – e esse é o pior negócio para quem mata. Não estou falando aqui de remorso, arrependimento, covardia, etc… Isso está implícito no homem, mesmo no psicopata. Mesmo o ódio é uma forma de amor do avesso, como dizia Chico Buarque, e o desapreço pelo adversário é uma forma de temor e respeito. Mas tornar mártir ou herói aquele que se odeia, ou que prega o pensamento que se combate, isso é antes de tudo burrice. Nós que não somos do Rio, sejamos francos. Nós que não pertencemos a organizações sociais ou movimentos negros ou GLBT, sejamos honestos. Alguma vez ouvimos falar da finada vereadora? Ou melhor, sem sua morte espalhafatosa e covarde, teríamos algum dia ouvido falar dela? Não, claro que não. A morte da inimiga do imbecil que a matou representa a canonização da finada. Metamorfoseia Mariele em mártir que dará nome a ruas, centros de estudos e ONGS. A data de seu assassinato vai virar feriado nacional. Políticos, colegas da morta, se elegerão ad eternum ao custo de sua sina trágica.  Seus entes queridos serão entrevistados no Fantástico. Morta, Mariele se torna uma lembrança endeusada e presa a uma redoma de vidro dedicada à proteção da memória e da imagem dos santos. Os tiros que a mataram saíram pela culatra.

Protestantes.
Há quinhentos anos surgia o protestantismo, nascido da dissidência de Martinho Lutero e Ítalo Calvino, bispos católicos alemães que se rebelaram contra a hipocrisia do clero papal, algoz do sacrifício dos súditos fiéis, enquanto o vaticano enriquecia deflagrando guerras de conquista por poder político e sob o pretexto  catequético de espalhar a fé em Cristo. Sempre vi algo de medieval na Igreja Católica, com seus papas monárquicos, sua cidade estado, ritos e a castidade de seus sacerdotes. O catolicismo como o conhecemos vem da Idade Média e carrega até hoje os traços das trevas da História.  Era preciso modernizar a fé em Jesus, trazê-lo para nossos tempos, dividir o júbilo a seu culto entre pastores e ovelhas, o que a Igreja Protestante fez muito bem. A própria ideia dos “santos” é de um medievalismo absurdo e remonta aos idos do mundo politeísta. Os papas criaram as figuras santificadas de heróis –    que intitularam “santos” – para seduzir os pagãos que arrebanhavam para o dízimo e resistiam, então, à crença em um Deus único.  Lutero e Calvino – e a igreja protestante que criaram – teriam feito um enorme bem para a humanidade, emparelhando o progresso religioso ao da ciência. Mas aí surgiu uma pedra, para lembramos o poeta Drummond. Ou melhor, várias pedras: as igrejas  de autoajuda, que exorcizam demônios, esconjuram tatuagens e gays, ovacionam líderes que fazem milagres semanais e benzem as águas do Rio Jordão por trinta dinheiros. Com esses falsos profetas voltamos à idade média da santa inquisição, agora mais sutil:  o temor a Deus é ideológico e moral e a tortura imposta aos pecadores é psicológica. Uma marcha ré enorme no progresso teológico e um desrespeito ao feito inigualável de Lutero e Calvino.

 

Renato Zupo,
Magistrado e Escritor

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