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Renato Zupo

Renato Zupo

Magistrado • Escritor • Palestrante

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Lula

ENTRETANTO

Cresci ouvindo falar de um líder operário barbudo, que falava errado e cuspindo e desafiava os grandes e fortes. Lutava contra os corruptos e valorizava os trabalhadores pobres de macacões sujos de graxa, assalariados membros do proletariado a quem defendia com unhas e dentes com risco pessoal para sua segurança e sua vida, na época do regime militar e da supressão de direitos individuais. Eu era jovem, então, e acho que todo jovem foi, é e sempre deveria ser um socialista, porque nutre em seu âmago uma fome de mudanças, um afã pela aventura da transformação do mundo, que só se destrói com o tempo e quando se descobre que nossos ídolos são todos, ou quase todos, feitos de pés de barro. Talvez porque o ser humano seja sempre assim. Não existem heróis e vilões, existimos nós, repletos de erros e acertos, alguns erros graves e outros nem tanto, com qualidades fenomenais e defeitos horrorosos, ou nem tão terríveis assim. Mas é só na maturidade que se descobre isso. Como dizia Nietzche, somos todos humanos, demasiado humanos.

Lula também é. Só no poder revelou suas enormes falhas e deficiências, porque o poder nos expõe, talvez seja a principal característica do poder. Saímos de nossa toca, de nosso ninho e zona de conforto, e entramos em uma gaiola de vidro, uma espécie de aquário em que somos vistos por todos e apedrejados ao mínimo sinal de fraqueza. O que fazemos de bom quando estamos no poder não passa de obrigação nossa, afinal, somos pagos para isso. Já nossos sacolejos e presepadas, esses são considerados pecados mortais e haverão de gerar frutos de ódio que permanecerão como fantasmas a nos envergonhar para o resto da vida e mesmo depois dela. Não é correto se dizer que o poder corrompeu  Lula. O poder não corrompe ninguém. Desenvolvemos nossos defeitos na quietude do lar e durante nossa formação moral. O poder, com sua enorme visibilidade, apenas expõe as chagas da corrupção que já possuíamos e que são esfregadas nos narizes da nação.

Com a maturidade, me distanciei ideologicamente de Lula. Ele na presidência da república, enquanto eu já havia passado por diversas peripécias, percalços e fases da minha vida, afetivas, pessoais, profissionais. Sofrendo o suficiente para conseguir entender as pessoas por detrás de suas palavras, a diferenciar o discurso da prática, e a me entristecer ao perceber que a enorme maioria das pessoas não tem ou não quer ter essa capacidade. Aprendi, com as muitas cicatrizes que a vida me deu, que os idiotas venceram e vencem sempre, que o Brasil é ingovernável, perdido e atrasado em uma máquina pública emperrada, com serviços ineficientes e burocracia e papelada e trâmites que lembram um labirinto kafkiano – se é que alguém ainda lê Franz Kafka e sabe do que estou falando.

Lula foi um bom presidente? Com suas enormes limitações intelectuais, sofrendo o que sofreu na infância, herdando um país à beira do primeiro mundo, penso que fez um governo razoável. Se cercou da pior escumalha de larápios e de sem vergonhas que o país já viu, muitos deles hoje presos e cumprindo pena, mas me surpreendeu positivamente. Não destruiu o legado de FHC, fez um papel bonitinho em suas viagens ao exterior, vendendo muito bem a imagem do pobrezinho que chega à presidência para salvar os esfomeados e oprimidos, e foi só. E foi muito. Pensava eu que ele arrasaria a nação, mas disso nosso bom ex-operário nos poupou. Essa tarefa, essa destruição em massa de uma economia sólida e emergente, da criação de guetos sociais que partem a nação ao meio, com um forte patrulhamento ideológico em um país vermelho de vergonha e das cores do PT, isso quem nos trouxe foi Dilma Roussef. Minhas condolências a ela e ao Brasil.

Agora Lula está na mira dos homens de preto, dos homens de toga. Até aqui seu enorme carisma e apelo popular o haviam safado de prestar contas com a lei. Diante da menor crítica, bastava-lhe lembrar seu passado operário, da vida guerrilheira de sua sucessora, ou simplesmente xingar quem o critica de filhote da ditadura e filhinho de papai, como fez com Aécio Neves nas últimas eleições presidenciais. Essas evasivas não irão mais adiantar. Lula vai ter que vencer mais essa batalha, sua última batalha, fazendo o papel de mártir de que tanto gosta e que lhe rende inúmeros admiradores, que hoje são também seus cúmplices na derrocada definitiva de sua imagem. O rei está nu.

Renato Zupo,
Magistrado e Escritor

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