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Renato Zupo

Renato Zupo

Magistrado • Escritor • Palestrante

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intolerancia briga conflito

Intolerância

ENTRETANTO

Já disse aqui que a palavra \”tolerância\” diverge bastante do sentido que a ela concedemos na linguagem diária. Se tolera o que é menor e incômodo, não o que é igual – foi  o que Norberto Bobbio observou certa feita, e jamais esqueci. Nós temos é que respeitar o que é diferente, mas é igual, e não tolerar. Só que estamos perdendo a ambos, tanto o respeito quanto a tolerância, e de maneira tão paulatina, lenta (porém resoluta) e sutil que não nos apercebemos que estamos construindo uma ditadura ideológica burra e histérica. Simplesmente não abrimos mão do que consideramos correto e não aceitamos condutas ou pensamentos diferentes, e aplaudimos quando os divergentes são punidos ou banidos ou simplesmente ridicularizados. Paramos de sentir pena, ou comiseração, pelo outro, para deixar de vê-lo como outro – é um adversário, um alienígena, alguém a ser vencido, só porque é diferente, ou pensa diferente. As esquerdas fazem isso: deixamos de ser brasileiros para compormos alguma tribo: negros, brancos filhinhos de papai, burgueses, índios, trabalhadores, oprimidos, elite, etc.. Deixamos de compor um \”todo\”, agora somos parte.  Vou dar exemplos.

Exemplo 1.
Fazem poucos anos um avião ia decolar de Confins, Belo Horizonte. Aeronave de passageiros, tinha uma comandante: Bethânia, se não me falha a memória. Dentro da cabine um senhor, ao saber que seria transportado por uma mulher e que teria sua vida pelas próximas horas nas mãos de uma jovem e saudável representante do gênero feminino, soltou uma vaga piadinha sexista e machista. As comissárias de bordo ouviram, transmitiram à comandante que simplesmente expulsou do avião o passageiro piadista. O sujeito foi tratado como um imigrante indesejável, um criminoso ou um passageiro clandestino, simplesmente porque fez uma piada, pensa diferente e é, presumivelmente, machista. E se for? Qual o problema? Ele paga seus impostos! No entanto, muitos acharam legal, bacana, teve entrevista com a comandante, movimentos feministas aplaudiram, etc… Por que simplesmente não deplorar a piada, ou fazer piada em sentido contrário, ou condenar a atitude? E se a moda pega? O preço de uma piada inconveniente, agora, é ser comparado a criminoso. Ninguém percebeu o absurdo da coisa, e ficou por isso mesmo. É claro, a Globo gostou, então temos que gostar, não é mesmo???

Exemplo 2.
Esta foi na internet, virou viral, meme, coisa que o valha. O sujeito estacionou seu carro em uma vaga para portadores de necessidades especiais, sem ter esse direito. Fez errado, é óbvio. Na volta, se deparou com seu carro todo empapelado, todo \”plotado\” de maneira debochada e ridícula. Para escarnecer dele, mesmo. Era para puni-lo por estacionar em local errado – punição que já existe no Código Nacional de Trânsito. Tudo certo que ele seja multado, tenha CNH apreendida ou, mesmo, que o carro seja rebocado, afinal de contas é o que manda a lei. Também não estou falando que o sujeito está certo! Agora, debochar e escarnecer, e danificar o veículo de um sujeito simplesmente porque estacionou em vaga proibida é, ou era, para ser um pouco demais, não é mesmo? Todo mundo adorou, ou quase todo mundo, o que me leva a crer que estamos realmente ficando doidos varridos e que nosso código de valores mudou para pior em uma proporção vertiginosa. Depois de muito relutar, acabei formando grupos de \”zap zap\”, simplesmente porque facilitam a comunicação e a conversa direta ao longo do dia. Dois desses grupos, de amigos normais e bem estudados, adoraram também. Gente do dia a dia, com inteligência acima da média, e que não se pergunta: e se o motorista estava em uma emergência médica? E se, simplesmente, estava num dia ruim? Merece virar piada nacional por causa disso? Quem faz justiça com as próprias mãos geralmente comete injustiças, e um povo que acha normal debochar de quem errou e danificar o patrimônio do infrator, simplesmente por conta da infração, é o mesmo povo que adora linchamentos, lei do talião e \”olho por olho\”. Estamos voltando à barbárie, lenta, mas inexoravelmente.

Exemplo 3.
Novamente a Dona Globo. No Fantástico há um quadro que graças a Deus esqueci o nome e que coloca pessoas em situações inusitadas e diante de impasses do cotidiano protagonizados por atores disfarçados. Foi assim que um ator se fingiu de bobo e invadiu uma ciclovia. Outra artista, passando-se por uma ciclista ferida em seus brios, parou na frente do carro e exigiu do motorista que saísse da via exclusiva. Com toda a razão, mas, pergunto, e daí? Seria fácil para a ciclista esperar o motorista fazer o que é certo e consertar seu erro, desculpá-lo e deixá-lo passar. Mas não! Era direito dela! Todo mundo aplaudiu e os passantes, que não sabiam que era uma dramatização, hostilizaram o motorista do veículo de quatro rodas que, com cara de desculpas e ar humilde (grande ator) tentava se explicar. Não há explicação: você está errado e pronto! Cadê o perdão, gente? O que fazemos com ele? Quando erramos, também esperamos tolerância (aí o termo de novo, agora no sentido certo). Mas quando o errado é o outro, partimos para a crucificação. E achamos normal. Estamos em guerra com o nosso semelhante e sob os holofotes incandescentes da burrice nacional fabricada pela mídia e por redes sociais.

Renato Zupo,
Magistrado e Escritor

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