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RENATO ZUPO

RENATO ZUPO

Magistrado • Escritor • Palestrante

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Fliaraxá

ENTRETANTO
Terminado o Festival Literário de Araxá, vejo que falta pouquinho para que se torne o maior do Brasil. Bateu todos os recordes e parece que foi nascido e criado para existir no Grande Hotel Tauá. O Espaço foi muito bem aproveitado e seu estilo monumental serviu como moldura e palco de diversos eventos paralelos e inesquecíveis envolvendo o universo cultural dos autores consagrados na edição deste ano: Mia Couto e José Saramago. Longa vida ao Fliaraxá, de preferência sempre no Tauá Grande Hotel.
Saramago.
Vou dar um tempinho com Saramago, tentar reler sua obra. Em uma primeira leitura, não o considerei com essa consistência toda que o tornou Prêmio Nobel e o mais significativo dos escritores de língua portuguesa da atualidade. Considerei-o bom… e pronto. Estou vendo que vezes sem conta é o leitor que não está preparado para o autor. Precisa amadurecer sua leitura e seu jeito de entender o mundo. Talvez seja o meu caso com José Saramago. É como vejo, por exemplo, Oscar Niemeyer. Todo mundo o acha um gênio da arquitetura. Eu fico plantado defronte suas obras monumentais e não consigo, simplesmente não consigo, ver essa coca cola toda. Querem outro exemplo? Picasso e um monte de contemporâneos seus, pintores cubistas, abstratos e etc… Sei que tem um valor artístico assombroso, não discuto, mas também não consigo aferir. Quanto a isto conversei com artistas que referiram que obras dessa magnitude ou você entende e gosta logo de cara, ou deixa pra lá. Como a ópera: não tem como ser explicada.
A Absolvição de Marisa Letícia.
Virou motivo de piada a defesa de Marisa Letícia prosseguir tentando absolve-la após sua morte, no mesmo processo do marido Lula. Como morreu, Sérgio Moro julgou extinta sua punibilidade. Significa que, com sua morte, não pode mais ser punida (em tese). Assim, o processo penal deixa de fazer sentido e deve ser extinto em face da finada. Todo mundo entendeu? Menos a defesa de Dona Marisa, que insiste em que seja absolvida sumariamente. Não há como absolver ou condenar alguém que já morreu. Quem morre deixa de ser pessoa e, portanto, sujeito de direitos e deveres. Não pode ser processado e, se o processo já existia, deve ser extinto. Simples assim. Para quase todo mundo, porque a defesa de Dona Marisa recorreu da decisão: que a absolvição da defunta, o julgamento de uma pessoa que já não mais existe. Impossível à luz do Direito.
As Gavetas de Janot.
Lembro-me do então veterano estudante de Direito da UFMG Rodrigo Janot da época em que eu era calouro na PUC de BH e ambos lidávamos com política estudantil e dividíamos os mesmos espaços, DCE´s, bares e, principalmente, o Edifício Maletta, reduto da boemia e dos sebos de livros raros e usados da capital mineira. Janot não saía de lá. Sempre sério, leitor compenetrado, ouvinte atento. Após sua saída da PGR, deve saber, precisa saber, voltar para a obscuridade e esvaziar as gavetas de suas memórias. Não é possível viver sendo um personagem de si mesmo, representando um papel que se esboçou e ajudou a criar e que, cessado o espetáculo da carreira fulgurante, deixa de ter sentido no enredo da trama. É preciso muita sabedoria para parar no auge, interrompendo a trajetória marcante com um movimento rápido e significativo, desaparecendo em seguida para uma aposentadoria justa e feliz. Janot nunca foi o PGR dos meus sonhos. Aguerrido demais, conversador demais, nunca ouviu Carnelutti: o Ministério Público é o juiz tornado parte. E, como magistrado, deveria ser mais contido. Apesar disso, seu mérito individual é inquestionável e merece um desfecho digno de sua competência notória. Que o ocaso lhe venha consagrar os holofotes passados com a discrição que lhe faltou na ativa. E que possa, de novo, desfrutar do paraíso dos livros e da boemia do nosso Edifício Maletta.
O dito pelo não dito.
“Não é a pornografia que é obscena. É a fome que é obscena.” (José Saramago, escritor português).
Renato Zupo,
Magistrado e Escritor

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