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RENATO ZUPO

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Fidel Castro

ENTRETANTO

Vamos precisar de algum distanciamento histórico para melhor analisar Fidel Castro. Ou melhor, Fidel Alejandro Castro Ruz, nascido em Santiago de Cuba no início do século passado, revolucionário, político, comandante supremo de Cuba e dos ditadores mais longevos no poder em todos os tempos. Seria muito fácil simplesmente afirmar que Fidel foi um líder sanguinário, porque mandou fuzilarem centenas dos opositores de seu regime comunista, ou que mandou prender ou deportar todos aqueles que não rezavam seu credo ou sua cartilha política. Também seria leviano afirmar que Fidel foi um precursor do socialismo latino-americano e que agiu como um santo que por décadas à fio libertou da opressão o povo cubano vitimado pela exploração capitalista dos seus vizinhos norte americanos. Não somos crianças e sabemos como terminou essa história: com a queda do muro de Berlim, com o fim das ideologias de esquerda e com o subseqüente reinado da política pragmática de resultados econômicos que assolou o mundo. Não! Fidel é muito dicotômico, ambíguo, de uma personalidade por demais intrincada para análises tão evasivas, superficiais e simplistas. Comparar Fidel com anjos ou demônios, heróis ou vilões, é partir de um pensamento infantil e maniqueísta, rotulando-o como o querem seus detratores ou seguidores, conforme a marola das ondas ideológicas de momento.

Fidel é muitíssimo mais complicado que isso, e só o distanciamento histórico haverá de dizer dele com a necessária precisão. Não é possível a análise do perfil histórico de um líder político tão rico em nuances sendo-lhe, nós, seus contemporâneos. E o passado recente é rico em definições inadequadas, apressadas e injustas. Hitler, por exemplo, em 1938 foi escolhido o homem do ano pela revista norte americana Time, porque então reerguia a Alemanha destroçada pela primeira guerra mundial. Bastaram meses para que ele iniciasse sua luta contra o mundo civilizado e demonstrasse ser de fato o monstro pervertido que dominava os germânicos e ameaçava estender seu poder bélico e ideológico pelo restante do globo. Napoleão Bonaparte a princípio atendia aos dogmas iluministas franceses da primeira república, até se tornar imperador, colonialista, e mais um ditador a incorporar o absolutismo banido com a tomada da Bastillha. Ronald Reagan chegou à casa branca como um ex-cowboy ignorante e um artista canastrão que alcançou o poder movido pelos preconceitos da terra de Tio Sam, e durante décadas foi defenestrado pela esquerda festiva dos Democratas e da grande imprensa estadunidense. Hoje se sabe que não eclodimos a terceira guerra mundial graças a ele.

Os exemplos, portanto, são vários, todos a demonstrar que não iremos conseguir, nesta geração, compreender em sua plenitude a personalidade política e o vulto histórico de Fidel Castro. Alcançou o poder através do povo e em uma verdadeira revolução, coisa que os esquerdistas do Brasil e cercanias deveriam aprender: não se revoluciona nada sem apoio popular. Tornado líder cubano, buscou e não obteve apoio dos vizinhos yankees, restando-lhe rumar para o socialismo da então União Soviética que abasteceu por décadas aquela pequena ilha do Caribe que se transformou em gigante em áreas como saúde, esportes, e sua exportação somente não galgou degraus mais elevados no cenário econômico mundial por conta do renitente embargo americano aos produtos manufaturados e industrializados provenientes de Cuba e que foram impedidos por represália política de serem comercializados no restante do mundo.

Fidel também foi o homem que impediu o voto livre e incensou Che Guevara e Camilo Cien Fuegos, dois guerrilheiros revolucionários que hoje facilmente seriam chamados de \”terroristas\” ou \”assassinos\” neste mundinho chato e politicamente correto em que vivemos. Realmente mandou matar ou prender seus opositores e pôs para fora da ilha cubana que dominou com mãos de ferro àqueles que teimavam em querer abraçar as luzes capitalistas da vizinha Flórida, lançando-se em balsas e enfrentando mares bravios para se refugiarem da ferocidade revolucionária do comandante supremo daquele satélite comunista entranhado em plena América Central.

Fidel Castro foi tudo isso, para o bem e para o mal, e muito mais. De fato, saltou da teoria para a prática, deixou de ler filósofos anarquistas para pegar em armas e fazer, ele mesmo, sua história e a história do sofrido povo cubano. Penso que hoje Fidel encontra-se indelevelmente inserido nos livros de história que albergarão os ensinamentos que a posteridade legará aos nossos descendentes. Tornou Cuba muito mais que suas republiquetas vizinhas, Nicarágua, Porto Rico, Honduras, etc… Transformou Cuba em um gigante polêmico, apesar de geograficamente possuidora de limites acanhados, e isso é o que basta para muitos. Lutou, combateu e viveu de forma coerente e libertária. Libertou para escravizar? Talvez, mas desconheço regime político que não tolha as individualidades de seus cidadãos. Fidel apenas foi autêntico ao desmascarar publicamente esta faceta indigesta do poder. E teve humildade suficiente para passar adiante o poder, para o irmão Raul, quando sentiu que lhe faltavam forças para prosseguir praticando seus ideais revolucionários. Criou em Cuba uma monarquia socialista, algo ridículo de se por em prática, mas que nas circunstâncias de governo que lhe calharam pareceu a ele, e aos que o cercavam, o mais prático e o mais lógico. Fidel não temia adversários, críticas, redes sociais, falta de apoio internacional. Bastava-se a si, e ensinou aos cubanos as vantagens e mazelas da auto-suficiência. Talvez este tenha sido seu maior legado.

 

Renato Zupo,
Magistrado e Escritor

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