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Renato Zupo

Renato Zupo

Magistrado • Escritor • Palestrante

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Facada na democracia

ENTRETANTO

Político “dar facada” é uma piada. Tomá-la, porque professa esta ou aquela ideologia, é um sinal claro de que nossa democracia claudica, é vacilante, está em seus estertores. Por isso quando se fala em eventual intervenção militar não se está dedicando histórias à carochinha ou contando pilhérias em mesa de bar. Se a coisa desanda, voltamos à quartelada, muito comum no Brasil até o AI-5. Os culpados da revolução (ou do golpe) militar de 1964 somos nós. Não soubemos viver democraticamente como civis e pusemos em risco a segurança de nosso sistema constitucional, como já houvéramos feito antes, com o tenentismo, o Estado Novo, Getúlio Vargas, etc… Éramos uma republiqueta de bananas. Desde a Constituição Cidadã de 1988 nos tornamos um país democraticamente forte, até que…. o que aconteceu? Quem chegou e desvirtuou nossas igualdades, quem colocou pobres contra ricos, negros contra brancos, gentio contra minorias étnicas, heteros contra homossexuais? Quem foi que entrincheirou a sociedade brasileira?

Incitação ao ódio.
Bolsonaro não é causador da facada que sofreu. Pelo contrário, burro quem tentou mata-lo, porque o tornou um mártir e aumentou-lhe as chances de envergar a faixa de presidente da república no próximo primeiro de janeiro. Não se pode medir o caráter ou a ideologia de um político pelas piadas que conta ou pelos preconceitos que nutre. Isso é muito pouco, convenha-se. Quem lê boa filosofia sabe que preconceitos todos temos, alguns embasados em experiências pessoais, conhecimentos empíricos, estatísticas, tradições familiares e culturais, etc… Os políticos “politicamente corretos” evitam exteriorizar suas teimosias e inconformismos polêmicos. Bolsonaro, não, Fala o que pensa, doa a quem doer. Não se gaba disso, tampouco procura corrigir, porque é sua característica mais cativante aos olhos do eleitorado. Ele não só é honesto por não ser corrupto. É honesto por dizer o que pensa, sem papas na língua, sem medo de arregimentar repulsa de grupos adversários, com um grau de reprovação inusitado e que não o incomoda. Não se incita o ódio quando se pensa diferente. Ninguém merece ser assassinado porque é de direita, esquerda ou centro. A facada que o candidato Jair Bolsonaro tomou nos fere a todos, porque mostra que ainda nos habita aquele complexo de vira latas que abominava à Nelson Rodrigues. Ainda somos um povinho com um pé na republiqueta de bananas que já fomos e que um dia poderemos voltar a sê-lo.

Por quê?

Não sou adepto de teorias da conspiração. Não acho que o idiota que feriu Jair Bolsonaro trabalhava para alguma célula terrorista clandestina ou deu facadas a mando de algum político ou partido de extrema esquerda obviamente avesso aos ideais do político a que se tentou matar. Como juiz criminal, sou expectador privilegiado de várias investigações criminais misteriosas e com desfechos surpreendentes e sei que muitas vezes crimes têm explicações insidiosas e intrincadas. Mas também delitos há com motivações grosseiras, simples e que dispensam maiores raciocínios e interlocuções. Para mim, tem gente que mata simplesmente porque é mau, psicopata ou acordou de mau humor. Cansei-me de assistir episódios de sangue movidos por ímpetos inexplicáveis e estúpidos. Lembro-me, por exemplo, de criminosos que trucidaram a facada por causa de erro no troco, mataram a esposa porque ela não fez a janta, deram tiros no trânsito porque foram ultrapassados ou porque a pobre vítima buzinou para um motorista menos atento e mais estúpido. Em síntese, pode ser que o idiota da facada seja apenas isso: o idiota da facada. Alguém que queria aparecer do pior jeito, talvez morto, para a posteridade. Porque em vida e fazendo coisa boa já se tinha visto que era um fracasso completo. Tem gente que mata por isso: para aparecer, para virar manchete de jornal. Parabéns, idiota da facada. Você conseguiu.

Uns contra os outros.
A distinção entre esquerda e direita não funciona mais no mundo moderno, porque nossa cartilha política e ideológica está cada vez mais igual, mais padronizada, e porque se visa e se busca cada vez mais eficiência na administração pública e menos palavrório, boas ideias mal executadas ou filosofia política de baixa qualidade, de botequim e pra boi dormir. Ou seja, vale o sujeito que faz bem e honestamente pelo povo, seja de qual ideologia for. Agora, a imprensa polariza essa besteira de que o candidato X é “de esquerda” e por isso quer engessar o mercado com estatais e manter uma política cara de assistencialismo social, enquanto Y é “de direita”, porque luta contra o aborto e a favor da cura gay e acha que mulheres devem receber menos do que homens… Bem. Deturpa-se tudo, criando um nicho de ódios que deflagra vendetas assiduamente incensadas nas redes sociais, as verdadeiras e virulentas favelas de calúnias. Todo mundo é repórter e todos contribuem para a desarmonia e para o incentivo ao ódio. Isso tem que parar, e rápido. Nossa democracia e nosso ressurgimento da crise dependem que nos unamos no próximo governo – seja de quem for. Senão, viramos uma Venezuela.

O dito pelo não dito.
“Faz parte da natureza das mulheres desprezar quem as ama e amar quem as detesta”. (Miguel de Cervantes, escritor espanhol, gênio).
Renato Zupo,
Magistrado e Escritor

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