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RENATO ZUPO

RENATO ZUPO

Magistrado • Escritor • Palestrante

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Envelhecer

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Quando nos aproximamos da morte temos mais passado do que futuro – é a principal consequência dos nossos cabelos brancos. Outra delas é que passamos a sofrer perdas de gente querida, e com isso vamos morrendo um pouquinho mais todo dia. Se vivemos lentamente, também morremos a conta gotas, e o grande dilema da existência é que a única alternativa à morte é o envelhecimento. Ou seja, enterramos amigos ou somos enterrados por ele. Esta semana perdi um grande amigo, uma grande alma, Tiago Coitinho, o Tiagão. A perda sofrida e inesquecível só não é maior que meu arrependimento de não ter convivido mais com ele. Se soubesse que se iria tão breve, no auge dos quarenta anos, teria sido mais diuturno em nossos encontros sempre prazerosos e plenos de alegria, com nossas famílias unidas e nossos filhos brincando juntos como irmãos. A lição que Tiagão nos deixa é a de um superpai de família, coisa que já não encontramos hoje em dia. Pai à moda antiga, que vivia para os filhos e para a esposa. E cidadão exemplar, de uma integridade ímpar, de uma honestidade à toda prova, que todo homem público do país deveria possuir. Para ele, o certo era o certo, o errado o errado, não havia jeitinho, nunca houve gambiarras morais. Um exemplo que vai embora cedo demais. Que fique em nossos corações como eterno paradigma.

Neymar de novo.
Por falar em envelhecimento, quando é que Neymar vai finalmente amadurecer? O caso dele com o zagueiro espanhol que o teria chamado de “macaco” renderia horas de conversa de bar. As câmeras de TV, com alguma dificuldade e apesar de toda a tecnologia de imagens, pegaram-no sendo ofendido racialmente pelo jogador adversário González. Antes, Neymar o chamara de gay, viado, ou coisa que o valha. Um é racista, o outro homofóbico, em tempos de paranoia politicamente correta. Depois, Neymar agride o zagueiro e é expulso e suspenso. Sempre me perguntei o motivo da ofensa racial ser pior do que as outras, mas o menino Ney conseguiu encontrar uma quase tão desagradável quanto. Se não se pode xingar no futebol, fica muito difícil. Vão ter que fazer como meu bom amigo Valdomiro Vieira, advogado e professor em Pouso Alegre: ainda calouro se meteu em uma pelada de faculdade e tomou uma pancada do beque rival dentro da área, evidente e que o árbitro não viu. Grito daqui, ofensa de lá, todos pressionando o juiz, Valdomiro se dirige ao homem de preto: “eu acho que Vossa Excelência se equivocou”. Futebol vai ter que ser assim.

Denegrindo chavões.
No exército todo recruta era chamado de “negão”, ainda que fosse albino nórdico e louro de olhos azuis. Hoje querem abolir expressões como “denegrir”, “ovelha negra” e outras tantas porque aludiriam ao racismo. É claro que é gente muito ignorante que assim o quer: a ideia de escuridão e luz como bem e mal advém da própria cultura afro e vem de tempos imemoriais – aí a coisa fica preta, não é mesmo? Curioso que os mesmos intelectualóides de zona sul já implicaram com a expressão “judiar”, porque pretensamente se referiria a judeus massacrados durante o holocausto nazista. Só que os judeus saíram de moda, o quente agora é meter o pau em quem denigre a imagem dos negros. Amigo meu negro, preto, afrodescendente (não sei mais como se diz), afirma que esse tipo de preocupação não existe na cabeça de quem tem dois empregos e acorda cinco da manhã, come um pão vencido com ovo e bebe café pra ir trabalhar e só voltar pra casa oito da noite. A necessidade iguala as cores e afasta a frescura. Fico com a opinião dele.

A ironia fina.
Rubem Braga e Manuel Bandeira, dois intelectuais como o Brasil poucas vezes viu, eram muito amigos e contemporâneos. Daí que um deles saiu-se certa feita com a frase “a ironia não encontra viço onde não há inteligência” – e não sei qual dos dois foi. Já pesquisei na internet e não descobri. Mas me lembrei da frase ao comparar o caso Neymar a outra injúria racial cometida em gramados europeus, então contra Daniel Alves. O lateral brasileiro foi cobrar um escanteio pelo Barcelona e lhe atiraram uma banana, que Alves pegou sem hesitar, descascou e comeu, em seguida batendo brilhantemente o corner. Choveram críticas não pela banana jogada, mas pela resposta do jogador, que para alguns imbecis de plantão reforçaria o preconceito racial. Para essas mentes inóspitas, certamente. O mundo deles é assim: ou se protesta, ou se concorda, não há espaço para a ironia e o sarcasmo. Para que não se descubra sua ignorância, se juntam em bandos e vão destroçando reputações pela internet, um belo exemplo de que, se a união não faz a força, ao menos faz barulho. Viva Daniel Alves e sua ironia fina.

O dito pelo não dito.
“Fui criada para acreditar que a excelência é a melhor forma de dissuadir o racismo e o sexismo. E é assim que oriento a minha vida.” (Oprah Winfrey, apresentadora negra norte americana).

Renato Zupo
Magistrado e Escritor

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