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Renato Zupo

Renato Zupo

Magistrado • Escritor • Palestrante

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Desamores

ENTRETANTO

Yoko Ono, a eterna viúva de John Lennon, disse certa vez espelhos se tornam navalhas quando quebrados. É uma epígrafe sobre os casamentos. Tenho visto como acabam facilmente nos dias de hoje. Tanto na minha vida privada, como profissionalmente, sinto-me triste ao ver lares se destruindo, casais que juraram amor eterno simplesmente se afastando até se tornarem estranhos, ou inimigos. Vejo crianças crescendo sem os pais juntos e profissionais das mais diversas áreas tentando explicar que isso tudo, hoje em dia, é \”normal\”. Não podemos confundir o que acontece continuamente, é corriqueiro e ordinário, com aquilo que é banal. Êta língua portuguesa, maldita em suas encruzilhadas interpretativas! Aquilo que ocorre sempre não é (necessariamente) desimportante, para o bem ou para o mal. O que é banal, por outro lado, é sem importância. Calma, que dou exemplo: passar fome na África é normal, mas nem por isso é banal, desimportante. Pelo contrário, é péssimo. Os amores que se destroçam nos casamentos arruinados, de idêntico modo, são comuns, mas ainda assim não perdem em importância, é péssimo que ocorram estas rupturas que geram profundas cicatrizes e efeitos terríveis nos nossos costumes e na criação de nossos jovens. Dizer o contrário é tapar o sol com a peneira. Ninguém se casa para se separar, e aí insiro também os \”conviventes\” em união estável, que eu e a Constituição, e todos nós, consideramos instituição tão séria quanto o casamento. Toda desunião, toda relação conjugal dissolvida pelo desamor é uma grande derrota tanto para o casal quanto para seus filhos, parentes, amigos, e para toda a sociedade.

A inutilidade da culpa.
Em boa hora nossos juízes e tribunais pararam de indagar da existência de cônjuges culpados nos processos de separação judicial e divórcio. O culpado, na verdade, é o amor que se dissolve. Antigamente era um tal de marido contratar detetive particular para investigar esposa, esposa convocar empregada doméstica para depor como testemunha e dizer que o marido chegava bêbado em casa, sogra detonando a moral do genro em audiência e na presença do juiz, etc… Isso, graças a Deus, acabou. Houve, nesse ponto, uma evolução muito bem vinda do nosso Direito de Família. Por outro lado, tornou fáceis e indolores as separações dos casais. Hoje é mais fácil e menos burocrático divorciar-se do que casar-se. Perde-se muito mais tempo casando-se do que, depois, dissolvendo a união conjugal, o que é incrível, mas sintomático: casa-se por amor, sentimento cada vez mais difícil de ser encontrado, mas a separação do casal se dá pelos mais diferentes motivos. Sou daqueles que partilham da opinião de que tanto o casamento quanto seu antônimo, o divórcio, devem ser antecedidos de um estágio de convivência, espécie de período de prova, em que os noivos devem se testar vivendo juntos primeiro antes de oficializarem sua união. A recíproca também é verdadeira: para romperem o vínculo conjugal, considero prudente um prazo legal de reflexão. Ao menos faria com que marido e mulher pensassem antes de se unirem e de se desunirem.

O ovo ou a galinha?
O ser humano sempre procurou conviver com seus semelhantes, isso desde a idade das cavernas. O convívio entre macho e fêmea, então, sempre foi uma necessidade recíproca ligada diretamente ao sexo e à necessidade de procriação e de cuidar da prole. Com o tempo, e o envolvimento da religião, a união entre os gêneros masculino e feminino se tornou sacralizada, algo necessário para garantir direitos, patronímico (sobrenome), descendência, herança, etc… E os motivos das separações? São os mais vários. Atualmente, a crise econômica tem revigorado a falta de atenção e de paciência entre os casais, o que é explicável: é muito difícil a compaixão pelo outro quando falta feijão na mesa. Também considero que as facilidades da vida moderna, inclusive em se tratando de sexo, tornam os casamentos as vezes incômodos de serem mantidos, mesmo quando o casal é \”aberto\”, balela que não existe. União alguma, sem monogamia, sobrevive, porque é da nossa natureza emocional sentir ciúmes. Curiosamente, a religião que lá atrás, nos primórdios de nossa história, ajudou a unir homem e mulher, atualmente contribui para essa desunião. Muitos são os casais que assisti se separando por conflitos religiosos: homem católico x mulher evangélica, por exemplo. O que Deus uniu, agora seus representantes e fiéis desunem.

Frase da semana.
\”Quando sopram os ventos da mudança, alguns constroem muros, outros constroem moinhos\” – provérbio chinês.

Renato Zupo,
Juiz de Direito e escritor.

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