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RENATO ZUPO

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Magistrado • Escritor • Palestrante

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É triste observar que inúmeros grandes filmes e livros e autores do passado, que nos deram tanta alegria em nossa juventude, ou mesmo iluminaram as trevas da ignorância de nossos ancestrais, se encontram hoje datados e embolorados pelo inexorável fluxo do tempo. Como fatos históricos e relíquias artísticas funcionam bem. Como entretenimento, são página virada. Refiro-me (e vou causar polêmica com isso) a autores como Shakespeare e Dostoievski, ou o português Eça de Queirós e o brasileiríssimo Euclides da Cunha, dentre outros escritores. Também me refiro a notáveis filmes que nos fizeram vibrar no passado e que, hoje, possuem uma linguagem defasada e geram interesse meramente acadêmico. Falo de cineastas como Fellini e Orson Welles, e a obras como Cidadão Kane e Amarcord, e até mesmo sucessos de bilheteria mais modernos como o musical West side story ou James Dean e seu imortal Juventude Transviada. Gente, estamos falando dos anos 1950, e já parece que se trata da era paleozoica! Como os tempos e as linguagens mudam. Ou será que somos nós? Acho que ambos. Já adorei quando adolescente a filmes de ficção científica que hoje não suporto, e lia tudo do ícone Charles Bukowski, que atualmente ainda aceito como um raro talento, que no entanto não consigo reler, simplesmente porque não se encaixa mais nas minhas predileções. Daqui a cinquenta anos, que tipo de cultura iremos consumir? Já imaginaram?

Cinema.
Chatíssimo o Oscar. Acabaram os filmes grandiosos. O último do qual me lembro foi “Avatar”. Filmes de arte, de autor, hoje em dia são para serem estudados, não para se assistir comendo pipoca. A arte cinematográfica, assim como a literatura, em primeiro lugar deve entreter. Se ensinar junto, se educar também, ótimo. Mas tem que ser gostoso de assistir ou de ler, ou não funciona. O cinema brasileiro, e junto a ele nossa literatura, durante muito tempo penou na mão de supostos intelectuais, gente que queria expressar sentimentos e explicar o mundo e se esqueceu que é necessário vender esperanças, risos e lágrimas, ou o público não irá compartilhar desse orgasmo coletivo que a arte representa. Foi necessário caminhar para este novo século a fim de modificar o ponto de vista dos profissionais responsáveis pelo business das artes e estas voltassem a ser estéticas. Aí entra nossa vã filosofia, para relembrar Shakespeare, que explica a estética como a forma de ver e entender o mundo através dos sentidos. Arte é isso. Favor não confundir com espetáculos pernósticos de quinta categoria que exploram o escatológico repugnante, como gente nua em museus e banhos de sangue e sêmen descontextualizados. Para criar, é necessário talento e amor pelo que se faz. Escandalizar é muito fácil, basta reprisar a realidade cotidiana.

E o teatro?
Falo de teatro e me lembro de Nelson Rodrigues, nosso maior dramaturgo, gênio da raça, que explicou como ninguém as misérias cotidianas e os eternos dilemas morais de nossa classe burguesa urbana. O teatro surgiu na Grécia antes de Cristo e foi a primeira tentativa de aliar o texto literário à cenografia, que então ainda engatinhava. Com o teatro, tataravô do cinema, pela primeira vez se procurou soltar a palavra escrita dos textos e coloca-la, viva, diante de nossos olhos e paixões, por sobre um palco. Nelson e sua obra ainda serão melhor compreendidos por muita gente que hoje o alcunha de machista ou cafajeste, restringindo-o ao nicho execrável e sem imaginação do PC (politicamente correto). Coitados, pai, eles não sabem o que fazem e nem o que dizem.

Inspiração.
Arte de verdade inspira. Volto à datação. Fellini ficou datado, mas Nelson Rodrigues não. Por quê? São da mesma época! Vou tentar elucubrar. Nelson nos inspira até hoje, Fellini foi um espetáculo de nuances, cores e imagens que representavam pinturas vivas de gente morta, em um grafismo impressionante que, no entanto, não sobrevive a releituras. Nelson, ao contrário, explica o mundo até hoje. Lembro-me muito dele, meu guru que nunca conheci, quando dizia daqueles que o criticavam: “Dos imbecis, só quero vaias”. É o que penso de uns e outros que amam odiar e tem mais ego que intelecto e educação. Mas deixa pra lá, que não vamos estragar essa bela conversa sobre os gênios do passado, vivos até hoje em suas obras imortais..

Perguntar não ofende.
Se o nome do gênero musical é “sertanejo universitário”, por que a maior parte dos seus fãs não tem nem o ensino médio completo?

 

Renato Zupo,
Magistrado e Escritor

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