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Renato Zupo

Renato Zupo

Magistrado • Escritor • Palestrante

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Chico Buarque

ENTRETANTO

O nosso mais talentoso bardo, compositor genial, dos poucos sobreviventes da transição da bossa nova para a MPB, Chico Buarque foi abordado de maneira desrespeitosa na porta de um restaurante da zona sul do Rio de Janeiro. Três jovens adultos, freqüentadores de colunas sociais e filhos de gente graúda, passaram a questionar e ofender Chico por vê-lo como um baluarte, um apoiador, de Lula, Dilma e do PT. Quase saiu porrada. Chico se fazia acompanhar do cineasta Cacá Diegues e de mais uns dois representantes da velha guarda da esquerda caviar intelectual carioca, e seus amigos quase partiram para a briga com os jovens que acusavam o músico de desconhecer os verdadeiros problemas do Brasil por morar em Paris, defender bandidos e ser um autista social. Verdade seja dita, Chico manteve a calma o tempo todo e não se deixou levar pelos rompantes de seus barulhentos opositores. Tudo filmado e na internet. Triste ironia: músico tão acostumado aos merecidos aplausos, se surpreendeu com o ódio e a intolerância de uns poucos. Não acho merecido e nem justo o que se fez com ele, ainda que fosse um simples eleitor e não o artista fora de série que levou nossa música para os quatro cantos do globo. Mas me permito analisar a questão sob dois enfoques que talvez tenham passado despercebidos do grande público: em primeiro lugar, Chico Buarque não é um simples espectador da cena política, mas sim um cabo eleitoral do Lulismo há doze anos, que colocou sua irmã Ana de Holanda em um dos muitos ministérios de Dilma e seu genro Carlinhos Brown para tocar o hino da copa do mundo e criar um instrumento símbolo da torcida brasileira para aquela competição, tudo sem licitação. Em segundo lugar, os jovens que o abordaram com um discurso reacionário e prepotente, comportaram-se como esquerdistas e petistas estereotipados, como se esperaria preconceituosamente de operários  marxistas e dirigentes sindicais, em um Brasil que não conhece mais diferenças entre esquerda e direita quando se trata de discutir a ignorância política de cada um.

Fernanda Torres.
Eu já disse aqui e no meu programa, \”Entretanto\”, na Web e na TV, que ninguém mais está agüentando essa praga que é o politicamente correto! Sobrou para Fernanda Torres. Alucinante atriz, filha da deusa Fernanda Montenegro, agora também é escritora e articulista, e das boas, com um texto pleno de prosa poética. Pois em recente coluna foi falar de feminismo e abordou cena de seu passado, quando passeava com a babá negra defronte a construções e via e ouvia sua funcionária sendo alvo de assovios dos pedreiros delirantes com a beleza brasileira da jovem e linda babá, que se sentia glamurosa e imponente diante daquele séqüito improvisado de admiradores. Bastou isso para choverem mensagens, postagens, emails, até vodu e macumba, contra a pobrezinha da Fernanda Torres, que não falou bobagem nenhuma e nem foi preconceituosa, limitando-se a tratar de sua infância com nostalgia para lembrar que a mulher se sente mais fêmea quando admirada, e que nisto somos todos iguais, homens e mulheres. Foi um tal de movimentos feministas e de mulheres negras criticarem-na abertamente, com rudeza, ignorância, agressividade, que sinceramente não entendi, porque o texto não justificava isso. Disseram, por exemplo, que Fernanda nasceu em berço esplêndido e sempre foi patricinha, e não sabe o que é ser negra na periferia das grandes cidades. Disseram que defendeu o assédio sexual e moral com os comentários que fez. Tudo absurdo. Aposto que a maioria de seus críticos é gente frustrada e que não entendeu ou não quis entender o belíssimo texto. Viva Fernanda Torres. Parece que não se pode mais falar em \”negro\” no Brasil sem sofrer acusações de racismo, independente do contexto em que o comentário surgiu. Vamos parar com isso, pessoal. Parece que só se pode falar de político no país. Qualquer outro comentário irônico ou estético sobre raças, religiões ou preferências sexuais é apedrejado. Onde está a democracia?

A morte dos Direitos Autorais.
Preocupa-me, como jurista e escritor, o que a Globo fez recentemente com a minissérie \”Ligações Perigosas\”. A obra é um remake do remake: baseada em um romance epistolar do Século XVIII do francês Chordelos Laclos, depois adaptado para o cinema na década de 1980 com Glen Close e Jhon Malckovich no elenco. Nem uma linha disso passou nas chamadas da minissérie global ou em sua abertura. Marotamente, esperaram o filme ser esquecido e o romance cair em domínio público para aproveitarem-se da ideia e da premissa, retirarem a trama do contexto e criarem uma obra pseudo inédita. E não é só a Globo que faz isso, justiça seja feita. Todas as emissoras de TV do mundo seguem na mesma trilha, não há mais ideias artísticas originais nos grandes veículos de comunicação. Para piorar, a internet vem permitindo uma série de aproveitamentos de obras alheias, e livros e músicas são distribuídos gratuitamente na rede sem necessidade de mídia (CD, DVD, etc…), no que se chama atualmente de \”streaming\”. Um absurdo. Daqui a pouco, computadores vão mesclar textos e ideias e criar obras artísticas. Assim se economiza com direitos autorais. Mas também é assim que se inibe o surgimento de novos talentos.

 

Renato Zupo,
Magistrado e Escritor

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