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Renato Zupo

Renato Zupo

Magistrado • Escritor • Palestrante

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Carta Branca ao Bufão

ENTRETANTO

Não sei se já repararam algo de curioso nos humores que regem a opinião pública, seja ela moldada ou não pelos formadores de opinião e pela mídia. É que há uma espécie de casta social imune a qualquer espécie de crítica ou repúdio, ou quase isso. Há uma classe de profissionais que permanece incólume e blindada de qualquer ataque ou crítica social, deles se perdoando erros e hábitos  a princípio muitíssimo questionáveis e que, se perpetrados por pessoas de outras profissões, facilmente serviriam de bandeira para uma crítica pública implacável guiada por uma internet cada vez mais virulenta e covarde. Estou falando da classe artística, mas de uma classe artística em sentido genérico, aí se incluindo todos os profissionais de diversão e entretenimento, dentre eles os esportistas midiáticos, e não somente os atores e cantores. Dessas pessoas tudo se perdoa! Podem se drogar, casar e descasar, bater nas esposas, botar fogo na casa, transar com menores, que a eles nada se imputa, como se já existissem alforriados de qualquer obrigação moral desde os primórdios dos tempos. Aliás, acho que essa vocação de perdão coletivo remonta aos bufões e bobos da corte das cortes medievais da idade média que viviam ébrios e agindo com espalhafato enquanto se imiscuíam debaixo das vestes das donzelas sem que perdessem a cabeça – nos dois sentidos. Como divertiam e eram de origem humilde, tudo bem! O homem é um animal que não consegue fugir da sua história, mesmo. De lá para cá só mudaram os meios de comunicação, mas os bufões permanecem  incólumes às críticas dos demais mortais. Saliento que admiro a classe artística, a qual pertenço indiretamente como escritor, e não estou dizendo que todo artista \”apronte\”. Mas, quando \”apronta\”, é paparicado, essa é que é a verdade. Vá um político, um juiz, fazer o que faz um ator da globo, preso com cinqüenta gramas de maconha, ou como um jogador de futebol que é flagrado no motel com um travesti, para ver o que acontece! Aos artistas, no entanto, tudo se perdoa, independente de cor, classe social ou propensão política. Talvez pensemos que eles, por exercerem atividades ligadas à fantasia, na verdade habitem um mundo de faz de contas repleto de regras de convívio diversas das nossas, e que portanto não se encontram obrigados a portarem-se como homens e mulheres públicos que de fato e na verdade são. O assunto mereceria um tratado que não vou escrever, mas concluo que se os artistas não fizerem algo de muitíssimo grave, mesmo, algo como dirigir um carro bomba dentro de um jardim de infância ou matar a golpes de espátula uma freira cega, permanecem absolvidos e livres para cometer aqueles grandes e pequenos pecados que todos nós cometemos e pelos quais somos implacavelmente vigiados.

Dilma sai ou não sai?
Já disse aqui neste espaço que há prós e contras gravíssimos no possível impeachment de nossa presidenta. No entanto, de todas as saídas, a pior delas, de longe, é a que está se avizinhando inexorável. O discurso bélico começou, de lado a lado, e isso remonta a um passado nem tão distante e a experiências recentes no Brasil e no mundo que tiraram a vida de jovens e arruinaram famílias, esperanças e futuros. Penso que a saída, seja ela qual for, tem que ser institucional. Ou Dilma muda o discurso e a atitude e conserta tudo, ou pede para sair, mas sempre em paz consigo e com todos. Não é, todavia, o que anunciam eventos recentes e que, fossem meteorológicos e não políticos, remontariam a relâmpagos e tsunamis. Ouvi na TV militares que muito admiro temendo pela segurança nacional, e aí eu é que pergunto a todos: o que isso na verdade quer dizer? Se nosso braço armado está \”preocupado\”, é porque teme ter que usar a força para manter a \”ordem\” ameaçada, e ameaçada não contra o governo, mas curiosamente pelo governo. De outro lado, temos a própria presidente, que falando a militantes disse que as tentativas de retirá-la do poder pela via constitucional se tratariam de tentativas intoleráveis de golpismo, como se já estivesse preparando o terreno para justificar o vindouro uso da força para impedir sua derrocada. Aliás, não só ela. Lula também disse que, se necessário for, coloca nas ruas os \”exércitos\” de militantes e membros do MST para defender a legitimidade da correligionária petista. Notaram o tom armado e guerreiro das conversas, ou sou só eu que estou preocupado a toa? Andamos muito mal! Lutamos tanto por uma normalidade democrática que estamos prestes a perder por falta de humildade: é reconhecer que se errou, é corrigir os erros com franqueza, é até mesmo sair com dignidade do poder e pela porta da frente. Pancadaria e sangue só nos farão retroceder mais ainda. Assim,  viramos uma Venezuela.

 

Renato Zupo,
Magistrado e Escritor

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