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RENATO ZUPO

RENATO ZUPO

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Se tem uma coisa que demonstra a cretinice cultural do brasileiro \”moderno\”, é a música sertaneja universitária. A antiga música caipira até que era tragável, desde que ouvida de porre na beira de um fogão à lenha. Sóbrio, impossível gostar daquela gritaria cabocla que terminou por soterrar nossa linda música popular brasileira. Mas o sertanejo universitário é uma perversão ridícula das antigas músicas de cabaré e de zona, berrada ao invés de sussurrada, como eram os bons boleros de antigamente, e somente são gostáveis por jovens imberbes e mulheres mal amadas – novas ou velhas – que usam aqueles guinchos de gosto duvidoso como trilha sonora de eventos interioranos, exposições de gado, festas juninas eletrônicas e outras porcarias que só servem para dissipar de nossa juventude o pouquinho de bom gosto que ainda lhe resta.

Quanto a essas \”festas\”, o leitor há de indagar porque só acontecem no interior. O sertanejo das capitais permanece ladrado dentro de boates ou em barzinhos – onde o álcool reina absoluto e em doses cavalares, impedindo o freqüentador de sair correndo ou exercitar seu juízo crítico. Mas nas exposições e rodeios de cidades pequenas e médias é que impera essa lenga lenga monocórdia, geralmente plagiada de grandes clássicos nacionais e internacionais, com melodia deturpada pela breguice jeca que é latente no centro de nosso Brasil caipira. Quando os eventos eram realmente originais, dava gosto conviver com as peculiaridades do bucólico cotidiano rural. Hoje, no entanto, nem o interior escapa do agito da baderna que seleciona seus convidados do gênero masculino pelo teor de álcool que consomem, e as moças pela quantidade de beijos que conseguem dar em moços desconhecidos mas dirigindo camionetes lindas, enquanto ouvem cantadores de botequim de quinta categoria se meterem a super stars em palcos erguidos em meio a estrebarias e cocheiras, com direito a carrapicho e bastante alfafa, que é para o tiragosto dessa moçada. Aliás, é por detrás dessas cocheiras que as moças vez ou outra mostram seus dotes a afortunados rapazes, enquanto a música (???) rola solta ao tom do grunhido de porcos estertorado de alto falantes para o deleite geral. Afinal, com música tão alta, não há necessidade de pensar, que cansa e dá trabalho.

Em termos de cafonice sertaneja, os goianos dão o tom, são os mestres da arte da caipirice eletrônica. Agora morreu um de seus ídolos, rapaz novo e já bastante jeca, berrador do qual eu e ninguém com amor aos tímpanos jamais ouvimos falar. No entanto, atraiu milhares ao seu velório e enterro, e ganhou post mortem fama e minutos preciosos do Jornal Nacional, que vivo jamais angariaria – e olha que estamos falando da TV brasileira, que não prima pela sofisticação e vive do populacho. É triste morrer jovem e tragicamente, mas também é melancólico seguir como um bobo a horda de um modismo trouxa, guiado por uma caboclada que só ganhou dinheiro, mas é analfabeta funcional.Um  jornalista famoso, Zeca Camargo, ousou afirmar o que todos sabem, não que o rei está nu, mas que o finado era um ilustre desconhecido fora da currutela que é o estado de Goiás – para mim resumido à Goiânia (uma imitação de BH) e Caldas Novas, isso apesar do xixi nas piscinas. Quase bateram no Zeca. Azar, burro dá coice mesmo. Ser famoso em Goiás não que dizer nada no resto do Brasil, apesar de nosso país estar todo ele alastrado da erva incômoda da ignorância e do desmazelo cultural. Nossos filhos são capazes de ouvir música clássica, jazz, rock do bom, MPB, e gostam, desde que coloquemos coisa fina para tocar. Agora, quando o pai e a mãe também são o supra sumo da jequice, fica difícil para os pimpolhos o acesso a cultura propriamente dita, e não a entretenimento paupérrimo, barato, plagiado, justamente a cara patética do nosso Brasil atual, e que de moderno nada tem.

Acrescento que optei por morar no interior. E gosto muito, pela sua simplicidade, pela hospitalidade de seu povo de coração puro e bom. Ser interiorano não é ser bobo, nem ter mau gosto, é estar aberto para todas as tendências sem abandonar as próprias raízes. É evoluir sem esquecer o passado – para o bem, para o mau, para a música e para a vida. Agora, sem sertanejo universitário, pelo amor de Deus.

 

Renato Zupo,
Magistrado e Escritor

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