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RENATO ZUPO

RENATO ZUPO

Magistrado • Escritor • Palestrante

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crianca migrante

Balada do Menino Morto

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Calou e assombrou o mundo a imagem do pequenino sírio, um moleque de três anos, afogado em uma praia turca que recusou recebê-lo como um ser humano e acabou servindo-lhe como derradeiro descanso. Que humanidade é essa, meu Deus, que trata pessoas como animais? O menino se chamava Aylan, mas poderia se chamar João ou David, ou Mohamed. Poderia ser o meu filho, ou do próximo, ou do vizinho, do meu amigo ou inimigo. Estava em uma barcaça com os pais e o irmão e sonhava com um mundo melhor, como milhares de pessoas o fazem diariamente quando se levantam para o trabalho ou quando oram por suas crenças nos respectivos templos.

Não há nenhum pecado em procurar uma melhor qualidade de vida, não há crime em imigrar para um país que não trata seus entes queridos como animais de carga, com governantes honestos que não procuram a guerra e a destruição em nome de uma fé que, quando cega, é mais perigosa que faca amolada – como dito na música de Milton Nascimento. O pequenino Aylan pagou com a vida simplesmente porque nasceu no lugar errado e buscou um sonho que acabou se transformando em um pesadelo amargo e fatal. É nesse mundo que queremos viver?

A vida do menino, mais uma das inúmeras vítimas de um planeta politicamente caótico, não foi ceifada somente em decorrência de regras de fronteira e de imigração, legislação internacional ou fundamentalismo. Muitos são os causadores de sua morte, não se podendo somente culpar o pai, que se aventurou com os familiares por milhas marítimas em um barco frágil e, impávido, sobreviveu à mulher e aos filhos engolidos pelas águas do mediterrâneo. Quem é pai sabe que se morre lutando para salvar a prole, e que é mil vezes menos triste morrer ao lado do filho amado do que assisti-lo perecer. O pai do pequeno Aylan elegeu enterrá-lo e sobreviver à tragédia. Mas talvez sua ignorância e rudeza insuspeitas sirvam-lhe de desculpa, o que não pode se dizer do governo de seu país de origem, envolto em guerras religiosas, como se os conceitos de destruição e religião pudessem se imiscuir na mesma frase e no mesmo mundo. A verdadeira religião é o caminho da paz, é o alento do fiel, é o caminho para a felicidade das famílias. A fé saudável não separa os povos por motivos de credo, mas sim une aos desiguais em torno da esperança. Os verdadeiros sacerdotes são aqueles que pregam a compaixão e a tolerância, e não os que promovem carnificina e desordem, imiscuindo sua crença nas leis e regras do funcionamento dos governos. Os falsos profetas, estes são também os culpados da morte do pequenino sírio, por fomentarem o ódio ao invés do amor, expulsando de seu convívio ou matando àqueles que pensam diferente ou crêem outras crenças. Era do obscurantismo religioso, da guerra estúpida e do estado impotente em promover o bem estar social que a família de Aylan fugia.

Culpados da morte do pequeno sírio, cujo cadáver frio emergiu em uma praia turca, somos todos nós. Permitimos que ditadores insanos existam e tenham poder, ainda que do outro lado do planeta, talvez acreditando que o problema não é nosso. Cruzamos os braços, nos omitimos, porque a tragédia é distante. Mas Aylan era um semelhante, era nosso irmão, aos olhos de Deus, Jesus, Alá, Jeová, Buda ou Krishna. Sua história não é só dele, é a história de todos nós, que cedo ou tarde imigramos, mudamos, procuramos transformar nossas vidas à revelia de um mundo carniceiro e insensível. Banalizamos a violência e deixamos como está, ao invés de provocarmos a mudança. Se não desbravamos fronteiras, é porque somos afortunados e não precisamos ou simplesmente não temos coragem, mas nossos ancestrais o fizeram, vindos da África ou do velho continente. Ou, quem sabe, serão nossos descendentes a se aventurarem por mares hostis em busca da felicidade, sofrendo os riscos do destino e as intempéries do tempo.

O menino sírio pereceu, mas não em vão. Mostrou aos habitantes do planeta Terra que vivemos, mais do que nunca, em um mundo globalizado e que as barbaridades políticas e religiosas devem ser combatidas por todos, em todos os lugares. Os direitos humanos devem ser respeitados, independente da cor ou do credo ou da política dos indivíduos. Quando não há respeito e nem dignidade, não vale a pena viver resignado, e é por isso que Aylan e seu irmão entraram em um pequeno barco abarrotado de desesperados e enfrentaram o tempo, o mundo, a ignorância política e a insensibilidade dos governos. Ele agora descansa em paz, longe da sórdida divisão econômica do globo e da miséria daqueles que falam em Deus, mas semeiam a discórdia e usam as diferenças raciais e religiosas como uma couraça para distanciá-los de seus irmãos e semelhantes.

 

Renato Zupo,
Magistrado e Escritor

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